MAIS UM DIA NA VIDA DE CHICÃO (PARTE 1)

Seis e meia da manhã, o odor fétido do córrego poluído invade as narinas de Chicão, que mesmo acostumado ao cheiro acaba por acordar, pois a água já estava molhando seu surrado colchão e todo o chão do barraco. Indiferente às condições insalubres, caminha em seu domicílio e abre o armário da cozinha, um pouco de pó de café e alguns biscoitos de água e sal, sente uma ponta de rancor, fecha.
Vou ver se arrumo um pão na padoca do seu Dito, seus botões declaram. Veste a bermuda, joga a camiseta por cima do ombro e toma os becos de seu bairro. O cheiro mais forte do esgoto quase lhe dá náuseas, a esquerda alguns cachorros disputam a alimentação no lixo exposto, a direita algumas crianças brincam, sujando-se com a água contaminada. Tudo nos conformes cruza com Leandro, amigo de infância, mas não o cumprimenta. Tá na nóia vai pedir dinheiro… Imagina.
Chega à padaria do seu Benedito, dois homens de ar militar que estavam a conversar com ele disfarçam e saem discretamente.
– E aí malandro, tem pão não, se adianta.
– Qual é seu Dito, tô no aperto, só mais essa vez.
– Sou teu pai não moleque, chega de mordomia.
– Tem nenhum serviço pra eu te adiantar não?
O ar de seu Dito se torna mais pesado com essa pergunta.
– Olha rapá, tu tem ideia do que tá querendo né?
– To ciente Ditão, cansei dessa vida, quero virar cidadão tá ligado?
Seis e vinte e sete da manhã, Benedito, dono da padaria e empreendedor em ramos escusos ouve fortes batidas no portão de seu estabelecimento e residência. Esses verme de novo, advinha. Acende o cigarro e caminha lentamente, levanta o portão, os senhores adentram sem nada dizer. A tensão denuncia a urgência do “pedido”.
– E aí ladrão, tem um serviço novo pra tu…
Dito traga profundamente o cigarro, quase se ouve o silêncio e apreensão.
– Desembucha.
– Tu vai meter uma vagabunda no cativeiro…
– Já disse que só trafico Morais.
– Quero saber não, se eu levar essa mijada tu vai junto.
– Porra Morais! Quer me foder?
– Segura a onda ladrão, quer adiantar teu tranco é?
Raiva e remorso invadem seu Benedito. Nada disso é exposto aos homens da lei presentes.
– É quem?
– Isabela Oliveira.
Dito solta uma risada nervosa, traga.
– Abre o bico Morais, filha de quem?
– Do coronel…
– Tá achando que sou teu faxineiro caralho?
– Cala a boca, vai fazer e ponto.
Os passos de Chicão são ouvidos na padaria.
Coronel Oliveira, linha dura da polícia militar. Sua honestidade só é tão grande quanto sua intolerância. Na noite anterior chamou alguns de seus homens ao gabinete e os informou que estava ciente dos desvios de armamento do quartel, e que daria o devido procedimento aos fatos apurados.
Veremos, balbuciou Morais ao sair do gabinete.
Seu Dito desdobra o papel deixado em cima de seu balcão, lê. Dirige um olhar sério a Chicão.
– Quer virar cidadão moleque? É desse jeito não.
– Caguei, bora que eu to na função.
Benedito expõe o pedido dos senhores que acabaram de sair. Francisco ouve atentamente, medo e expectativa lhe invadem.
– Ganho o que com isso?
– Vai ganhar, precisa saber mais que isso não…
Meio dia e quarenta e cinco. Da esquina ouve-se o sinal, movimentação na porta do colégio, agitação na mente do meliante. Três jovens caminham despreocupadas em direção à esquina. Porra, o que eu faço com essas piranha? Como que programado, sai do carro, revólver em punho, uma coronhada, um empurrão. Isabela no carona. Acelera ansiosamente pelas ruas, atormentado ao mesmo, para não dar bandeira.
– Dá um pio que eu te passo vagabunda!
Lágrimas reprimidas correm o rosto da moça.
Quatro e dezesseis. Senhora Oliveira liga para o coronel.
– Otávio, a Isabela avisou onde ia?
– Não, preciso desligar. Trabalho sério.
Nessa hora Otávio, o pai, tremulamente liga para sua filha. Fora de área ou desligado. O pai deseja sair à procura. O coronel não sabe com quem contar. Desconfiança, desilusão, arrependimento. Entra em seu gabinete.
“Se nada tiver sumido Isabela também não vai”
Diz um bilhete de letras recortadas de revistas.
barracoenchente

Essa é a minha primeira tentativa de escrever um conto, por isso postei parte dele a fim de pedir a aqueles que se disporem sugestões, críticas e opiniões para que eu melhore meu estilo. Agradeço desde já.

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Uma resposta em “MAIS UM DIA NA VIDA DE CHICÃO (PARTE 1)

  1. Pingback: Chicão no Circo | O Analista

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