Sobre rennanmartins

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O termômetro dos nossos dias

A desintegração da persistência da memória. Salvador Dali, 1954

Por Rennan Martins

Se engana aquele que julga ser preciso livros pra conhecer o mundo. Ele acontece e se mostra, a todo instante, diante dos nossos olhos

Impressiona aqueles que não notam a história, este espetáculo que ultrapassa todos os limites da ficção, acontecer incessantemente. As diversas interações sociais a pleno vapor, em todos os âmbitos, encantam e são dignos de nota.

Começo pelo fato que moveu minha escrita. Estou em Brasília, já passam das 2:30 da manhã de um 25 de maio, e chove.

A capital brasileira é conhecida por duas estações bem definidas de seca e chuva e se o clima não estivesse mudando tanto, a secura reinaria nesta época, sangrando o nariz dos forasteiros.

Que será que as mudanças climáticas, que só começaram, nos trarão com o presumível ganho de vigor? As previsões são pessimistas.

Continuando no clima. Se por aqui a água desequilibra a dinâmica do Cerrado, em São Paulo assistimos o Cantareira esvair-se, com o volume morto já em uso. Não foi somente a chuva que não veio, o grau de impermeabilização da localidade é tão alto que o ciclo hidrológico tem um deficit considerável de infiltração, que se transforma em enchentes e inundações.

Provavelmente encontraremos uma saída para esta questão crucial, mas temos o dever de procurar soluções de menor custo humano possível.

No campo político internacional, o cenário é o de um império, a saber, o norte-americano, se debatendo diante da perda de poder.

No ano em que nasci os ianques venciam a dura guerra contra os soviéticos, alcançando o auge. O intelectual de prateleira, Fukuyama, chegou a anunciar o fim da história, pra regozijo de seu amo.

Pouco mais de 22 anos depois de Gorbachev assinar a dissolução da URSS, seu arqui-inimigo à época vigia todo o planeta no objetivo de auferir ganhos e manter posição. Emblemático neste ponto é a última revelação do Wikileaks desta semana, que nos mostrou que todas as ligações do México, Bahamas, Filipinas, Quênia e Afeganistão são monitoradas.

Só que com essa prática estão a cruzar a linha do temor, alcançando a do ódio, o que os sentencia a queda, como ensinou Maquiavel.

A ascensão de uma ordem multipolar reflete a demanda dos desafios que temos a frente.

Com o capitalismo liberal conseguimos a fartura, que colateralmente trouxe a crise ambiental e um abismo social crescente.

Esta problemática só será superada por princípios coletivistas e colaborativos.

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Chicão no Circo

Por Rennan Martins

Seis e meia da manhã, o odor fétido do córrego invade as narinas de Chicão, que mesmo acostumado ao cheiro acaba por acordar, pois a água já estava molhando seu surrado colchão e todo o chão do barraco. Indiferente, caminha em seu domicílio e abre o armário da cozinha, um pouco de pó de café e alguns biscoitos de água e sal, sente uma ponta de rancor, fecha.
Vou ver se arrumo uma larica na padoca do seu Dito, dizem seus botões. Veste a bermuda, joga a camiseta por cima do ombro e toma os becos de seu bairro. O cheiro mais forte do esgoto quase lhe dá náuseas, à esquerda alguns cachorros disputam a alimentação no lixo, à direita algumas crianças brincam, sujando-se. Tudo nos conformes. Cruza com Leandro, amigo de infância, mas não o cumprimenta. Tá na nóia, vai pedir dinheiro… Imagina.
Chega à padaria do seu Benedito, dois homens de ar militar que estavam conversando com ele disfarçam e saem.
– E aí moleque, tem nada sobrando não, se adianta.
– Qual é, seu Dito, tô no aperto, só mais essa vez.
– Sou teu pai não.
– Tem nenhum serviço pra eu te adiantar não?
O ar de seu Dito se torna mais pesado com essa pergunta.
– Olha, tu tem ideia do que tá querendo, né?
– Tô ligado Ditão, cansei dessa vida, quero adiantar meu lado.
*
Seis e vinte e sete da manhã, Benedito, dono da padaria e empreendedor em ramos escusos, ouve fortes batidas no portão de seu estabelecimento e residência. Esses vermes de novo, advinha. Acende o cigarro e caminha lentamente, levanta o portão, os senhores entram sem nada dizer. A tensão denuncia a urgência do “pedido”.
– E aí ladrão, tem um serviço novo pra tu…
Dito traga profundamente o cigarro, quase se ouve o silêncio e apreensão.
– Han…
– Tu vai meter uma vagabunda no cativeiro…
– Já disse que só trafico, Morais.
– Quero saber não, se eu levar essa mijada tu vai junto.
– Porra Morais! Quer me foder?
– Segura tua onda aí, quer adiantar teu tranco?
Raiva e remorso invadem seu Benedito, que não as deixa transparecer aos homens da lei presentes.
– É quem?
– Isabela Oliveira.
Dito solta uma risada nervosa, traga.
– Dá nome aos bois Morais, filha de quem?
– Do coronel…
– Tá achando que sou teu faxineiro, caralho?!
– Vai fazer e ponto.
Os passos de Chicão são ouvidos na padaria.
*
Coronel Oliveira, linha dura da polícia militar. Conhecido pela honestidade, só tão grande quanto sua intolerância.
Na noite anterior chamou alguns de seus homens ao gabinete e os informou que estava ciente dos desvios de armamento do quartel, e que daria o devido procedimento aos fatos apurados.
Veremos, balbuciou Morais ao sair do gabinete.
*
Seu Dito desdobra a folha deixada em seu balcão, lê. Dirige um olhar sério a Chicão.
– Quer se adiantar? É desse jeito não.
– Caguei, bora que eu tô na função.
Benedito expõe o pedido dos senhores que acabaram de sair. Francisco ouve atentamente, medo e expectativa pulsam.
– Ganho o quê com isso?
– Vai ganhar, precisa saber mais que isso não…
*
Meio dia e quarenta e cinco. Da esquina ouve-se o sinal, movimentação na porta do colégio, agitação na mente do meliante. Três jovens caminham despreocupadas em direção à esquina. “Porra, o que eu faço com essas piranha?”
Como se já conhecesse o procedimento, sai do carro, revólver em punho, uma coronhada, um empurrão. Isabela no carona. Acelera ansiosamente pelas ruas, tentando algo difícil. Não parecer suspeito.
– Dá um pio que eu te passo!
Lágrimas involuntárias correm o rosto da moça.
Quatro e dezesseis. Senhora Oliveira liga para o coronel.
– Otávio, a Isabela avisou onde ia?
– Não, preciso desligar. Trabalho sério.
Nessa hora Otávio, o pai, liga para sua filha. Fora de área ou desligado. Tenta se acalmar, mas a vontade é sair à procura. O coronel não sabe com quem contar. Desconfiança, arrependimento. Entra em seu gabinete. Torce pra que este fato não tenha nenhuma ligação com sua denúncia.
“Se nada tiver sumido, Isabela também não vai”
Diz uma folha impressa.
*
Francisco, mais novo sequestrador de sua comunidade, não vê outra opção que não seja trancar a jovem em seu domicílio, descarta a possibilidade de sua mãe aparecer e escandalizar, sabe que os sumiços dela costumam demorar não menos de três dias. Estaciona o veículo cedido pelo contratante Dito em local discreto e segue com ela pelas vielas, sob constantes ameaças. Impossível julgar em qual dos dois há mais nervosismo.
-Só quero o dinheiro, tá me entendendo?
-Sim…
Isabela pensa em pedir pra não ser machucada, mas rapidamente chega à conclusão que não lembrá-lo da possibilidade é mais interessante.
*
Vinte e quarenta e um. Depois de muito rodar pela cidade na esperança de encontrar sua filha, imagina quem é o mais indicado a ajudar sem oferecer perigo à sua família, descobre que nenhum de seus colegas é confiável. Entra em casa.
-Cadê a Bela? O que tá acontecendo?
Tenho tudo sob controle, Elisa, afirma o coronel, tentando esquecer que é também o pai. É tamanho o esforço de parecer forte que nem repara em sua mulher tomando o papel de sua mão.
-Vou ligar agora pra polícia, Otávio!
-Eu sou a polícia, os outros são vermes.
-Como assim?
-Não posso contar com nenhum deles…
-Conta pra mim ao menos, é nossa filha… Isso não é uma operação.
Neste momento, o coronel sai de cena, quem fica é somente Otávio, abalado em suas convicções, inseguro perante o que fazer. Expõe toda a sequência de fatos que culminaram neste pesadelo, se tocar da pessoalidade do problema o tornou incapaz de assumir sua patente.
No primeiro momento que se põe a pensar na condição de pai lhe ocorre uma lembrança. O balbuciado de Morais invade sua mente, sente um impulso violento ordenando sua morte. As conjecturas que, a esta altura já não possuem controle, o advertem que antes da vingança é necessário salvar sua filha. Sai de casa outra vez.
*
Mais ou menos no mesmo horário, em um ponto qualquer da cidade, Morais toma cerveja atento ao noticiário, a entrevista que prestou após a polêmica prisão de um ladrão de galinha o perturba, pois, ao ser indagado do motivo da surra que aplicou ao detido desarmado, afirmou com veemência:
-Porque eu quis!
Pensava nas repercussões, pensava principalmente que não podia ser exonerado. Assiste a si próprio na tela da TV do bar, ouvindo sem discernir as palavras de apoio vindas de seu colega. Até que inicia, em seguida à sua aparição, a sessão de opinião da âncora do programa.
“Diante de um judiciário que protege os marginais e agride o cidadão de bem e seus protetores, diante de uma sociedade tomada pela violência à qual o Estado se omite, diante de uma indignação generalizada que clama pela justiça ainda que errônea, a atitude do cabo Morais é no mínimo compreensível. Não podemos confundir a ação de alguém que desesperadamente quer justiça com a de alguém que pratica a violência pura e gratuita. Este exagero da força, se assim pode ser considerado, deve ser creditado não a quem o praticou, mas sim a quem o provocou!”
Soa como música a seus ouvidos, alguns frequentadores o parabenizam, rapidamente muda de humor, sente-se um herói. Após ter certa segurança de que ainda tem emprego e que sua privilegiada posição em relação à lei continuará, se lembra da filha do coronel. Decide então se inteirar do andamento do serviço que contratou, liga para seu Dito que informa, por meio de códigos, que o rapto já ocorreu, desliga dizendo a ele que espere segunda ordem.
De uma mesa de canto, coronel Otávio, que ali chegou há poucos minutos, bebe água aparentando paciência, lançando seu olhar sobre o cabo Morais que, mesmo sob o efeito do álcool, consegue sentir a forte energia emitida. Se vira procurando de onde ela vem, avista seu superior. Tomado pela confiança transmitida pela relevante opinião proferida pela mídia, se senta ao lado de Otávio.
-Fala coronel, posso dispensar a formalidade militar nesta situação, né?
-Filho da puta, você vai me falar e vai ser agora cadê minha filha.
-Do que você tá falando? Por acaso isso é uma acusação?
-Quem está falando de lei aqui? Nós dois resolveremos isso é aqui mesmo.
-Tava vendo o jornal? Fiquei influente, melhor segurar sua onda…
-É o seguinte, Morais, já tenho cópias das auditorias distribuídas a alguns sob ordem de entregar à imprensa diante de qualquer fato estranho.
-Hum… Será?
-Nosso herói vai pagar pra ver?
A sensação do poder, da imunidade já o tinham apaixonado. Só de imaginar ser caguetado, sua postura já se afeta. -Que garantia eu tenho, coronel? Você vai me foder com ou sem família… Minha mãe vai chorar antes da sua.
-Olha só, Morais, estou pouco me fodendo pra tuas merda, só me leva até ela que eu calo a boca, e outra, a única certeza que você tem é que tá fodido se algo acontecer. Sabe que não terei nenhum motivo pra não fazer da sua vida um inferno ou pior.
Morais se cala, medita na óbvia constatação que sua pretensão não permitiu enxergar. Neste instante, um turbilhão de pensamentos o invade, repara em volta, seu colega sumiu, esperando assim não se comprometer. Imagina sua morte, imagina sua exoneração, sua prisão, e segura o impulso de acabar com Otávio ali mesmo.
-Vamo no teu carro buscar ela.
Otávio levanta sem reflexão, sob a força da paternidade. Tomam o caminho. Morais decide que é melhor descobrir o local do cativeiro pessoalmente. Somente avisa a Benedito que se encontra no portão pelo celular. Dito sai de sua casa, cambaleante de sono e cachaça.
-To te vendo muito esses tempos, Morais, gosto disso não.
-Vai perder tempo algum, só me diz onde o encarregado guardou o malote.
Benedito indica a eles como chegar no local, sente uma pontada de remorso em envolver Chicão neste lamaçal, o sono porém o vence e então volta a dormir.
Morais e Otávio, em alta tensão e dispostos às últimas consequências em nome de seus interesses conflitantes, seguem quase como parceiros pelos escuros caminhos da favela. Chegam onde parece ser o local indicado.
É aí então que Otávio é tomado pela sede de vingança, com uma voz dissimuladamente tranquila chama por Isabela, que solta um grito abafado em resposta, numa questão de segundos, ouve-se um disparo. Morais cai sem vida.
Adentra o cativeiro de sua unigênita, enxerga um rapaz tomado pelo medo, de pistola colada no ouvido da sequestrada. Cálculos então são feitos por todos os participantes. Chicão só pensa em não acabar como muitos que conheceu. Isabela só pensa em se desvencilhar de quem a usa como escudo.
Otávio então tem certeza, em um instante impossível de ser medido, que isolou Chicão em sua mira. Disparo.
Morre Chicão. Morre Isabela.
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Observações: Este conto teve seu esboço publicado anteriormente aqui mesmo neste blog em post intitulado “Mais um dia na vida de Chicão (Parte 1)“. Após finalizado, o enviei ao Passa Palavra que o publicou em primeira mão. A Revista Práxis, iniciativa do camarada George dos Santos também o replicou. Quanto à música de Gabriel o Pensador, só fiz este link posteriormente, mas é muito apropriada à proposta.

Soneto a Gabriel

Faleceu hoje, aos 87 anos, o eterno Gabo, Gabriel García Márquez. Jornalista, escritor, ativista, colombiano e amante da poesia, ganhou o prêmio nobel de literatura em 1982 por seu romance Cem anos de solidão, no qual pelo realismo fantástico, conta a história da América Latina.

No discurso que proferiu quando da entrega do nobel, intitulado A solidão da América Latina, Gabo considera nosso continente como terra de todo especial, para o mal ou para o bem, do qual o romancista pouco precisa imaginar para sua criação.

“Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão.”

Sua vida foi dedicada a expor a realidade latino-americana, a cantar o amor por nosso povo sofrido e pela nossa unidade. Agora, após sua ida, os diversos veículos de imprensa que seriam seus inimigos o pintam como um escritor acima do mundo, isso não é verdade. García Márquez foi correspondente da Prensa Latina, mídia cubana, durante muitos anos, e sempre defendeu a igualdade e a justiça social da esquerda política.

Desde 1999 foi acometido por um câncer, sofria também de doença degenerativa que atacava sua memória. Neste ponto, abro espaço pra um relato pessoal que creio ser pertinente.

Na última madrugada do dia 11 para 12 estava em viagem quando escrevi o soneto que dá nome a este artigo. Compus na esperança de publicá-lo na rede em seu próximo aniversário, pra que a homenagem fosse feita numa data que não sua morte, fazendo assim uma associação mais feliz e menos oportunista. Não tive a chance, infelizmente.

Segue portanto, minha homenagem póstuma:

Soneto a Gabriel

Amante da Latino-América
atento observador popular
dedicou sua vida, sua pena
a nos unificar

o poeta da solidão
ao mundo inteiro cantou
as façanhas e desventuras
da gente de nosso chão

do continente dos abismos
que é capaz de amar ao infinito
e ainda assim abandonar seus filhos

agora descansa, Gabo
e não te aborreças porque se esqueces
sempre lembraremos de ti.

OS NEONAZISTAS, A UCRÂNIA E A REDE GLOBO

Desde novembro temos assistido a Ucrânia passar por diversas demonstrações contra o governo depois que o presidente Viktor Yanukovich, do Party of the Regions, declinou da proposta de integrar o país ao bloco econômico da União Europeia. A escalada da violência dos atos é evidente e as últimas notícias computam cinco mortos e mais de duzentos feridos na revolta que ficou conhecida como Euromaidan.

O que pouco é explorado nos noticiários é o caráter, as características políticas das lideranças do movimento, assistindo a grande mídia a única informação que conseguimos captar é que são manifestantes democratas que anseiam por se aproximar da Europa por compartilhar de valores civis ocidentais. Uma análise mais aproximada nos expõe outros fatos, no entanto.

Observemos a imagem do protesto abaixo:
Svoboda-MinisterioG

Nela podemos constatar duas bandeiras, a do partido de extrema direita Svoboda (Liberdade) em amarelo e azul e a do Exército Insurgente da Ucrânia em preto e vermelho, que para os desatentos facilmente passa por uma bandeira anarquista, uma rápida pesquisa porém nos informa que o Exército Insurgente da Ucrânia também possui valores neonazistas e estas duas organizações aliadas constituem a vanguarda das massas.

O analista político Dmitry Babich explana numa entrevista a Reuters: “estes neonazistas se envolveram e penso que devemos chamar algo pelo seu nome real. Os ultranacionalistas da Ucrânia ocidental são neonazistas.”

Esta foto de um dos manifestantes tem muito a nos dizer:
ukrainian-nationalists-attacked-police.si

Mais interessante é a análise dos atores políticos, as alianças e movimentações entre os líderes do levante e as lideranças ocidentais. O site de notícias Nihilist nos informa que o partido de oposição UDAR (Ukrainian Democratic Alliance for Reform) liderado pelo ex-boxeador ucraniano Vitaly Kitschko está em coalisão com o Svoboda, e que o primeiro foi fundado há três anos e é financiado pela fundação “Konrad Adenauer Stiftung”, criada pela primeira-ministra alemã Angela Merkel.

Podemos ver Klitschko (direita) e o líder do Svoboda, Oleh Tyahnybok, juntos em um ato nesta imagem:
ukraine

Essa ligação constitui evidência de financiamento estrangeiro ao golpe, principalmente se considerarmos que o presidente Yanukovich ofereceu ontem ao líder do partido de oposição Arseniy Yatsenyuk o cargo de primeiro ministro e ao próprio Klitschko o cargo de deputado do primeiro ministro encarregado de assuntos humanitários, e hoje ambos declararam que declinam da proposta e que a pauta de assinatura do acordo com a EU e antecipação das eleições continua como exigência.

Nesta foto podemos ver ambos:
25_klitschko_g_w_LRG

Digno de nota também é o encontro do líder do Svoboda, Oleh Tyahnybok, com o senador republicano John McCain noticiado pelo Channel4 no dia 16 de dezembro do ano passado. Com a atos revolta em crescimento, parece que o senador não poderia deixar de planejar alianças com seus semelhantes. Registrado em:
cain-replace_LRG

Feitas todas essas considerações, o último comentário pertinente é sobre a postura da Rede Globo diante de todas essas conexões evidentes. Em matéria publicada no G1 na última quinta feira dia 23, o tom de exaltação aos manifestantes é evidente aos mais atentos, todas essas ligações expostas acima são ignoradas e as únicas vozes ouvidas caracterizam o governo como ditadura e o levante como revolução, o texto ainda fecha com uma declaração “inspiradora” de Klitschko: “Se for preciso brigar, brigarei; se for preciso marchar sob as balas, marcharei sob as balas”.

Parece que nosso maior veículo de mídia já escolheu seu lado.

SOBRE A “INDEPENDÊNCIA” DA FOLHA POLÍTICA

Quando acessamos o site da agência de jornalismo “independente” de Folha Política nos deparamos imediatamente com este banner abaixo que impõe respeito e causa uma boa impressão, a de que haverá imparcialidade na hora do trato no assunto o qual se dedicam, a política. Uma análise mais detalhada porém nos revela fatos interessantes.
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Atentem por exemplo para o print extraído do artigo denominado “Globo recebeu mais de R$495 milhões de Dilma em 2012”. A manchete nos transmite a impressão de que nossa presidente está a influenciar a linha editorial da emissora por meio de pagamentos milionários. Se atentarmos porém ao corpo do artigo, notamos que o pagamento não foi realizado por Dilma nem pelo PT, e de que estes gastos na verdade tratam-se de “publicidade estatal”, ora, não diferenciar governo de Estado é um erro crasso que induz o leitor mais desatento ao engano. Continuemos então.
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Observem desta vez os anúncios de outros artigos relacionados ao assunto. A análise das manchetes novamente nos demonstram tendenciosidade. Quando trata-se do mensalão mineiro, no qual o PSDB é protagonista omite-se a informação que remete aos tucanos, quando porém o mensalão em questão é o do PT, o nome do ex-presidente Lula é citado. Uma proposta de jornalismo independente não deveria ou sempre ser genérica ou sempre ser específica para todos os atores políticos?imagem3

Finalizando a análise podemos consultar a seção de parceiros do site, lá encontramos como um deles o Movimento Contra Corrupção, que até para os mais distraídos deixa transparecer seu anti-petismo e indignação seletiva com a corrupção. Algumas conclusões pertinentes podem ser feitas após essas constatações.
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Abaixo deixo as referências as quais extraí os prints:

http://www.folhapolitica.org/2013/12/globo-recebeu-mais-de-r495-milhoes-de.html

http://www.folhapolitica.org/p/parceiros.html

Retificação: Anteriormente o artigo vinculava Folha Política ao grupo Uol por meio de um print de um anúncio e fazia conexão com a linha editorial da Folha de São Paulo, que pertence ao grupo. A ajuda de um leitor porém fez-me enxergar que esta associação era equivocada, portanto, editei e a retirei.

2014, retificando Orwell

Visão além do tempo
profecia fria e certa
Orwell nos deixou
é somente incorreta
a descrição, o que o nomeou

o Grande Irmão tomou forma
diferente da de um homem
e seu olho pouco importa
pois tem Mão poderosa

Mão esta invisível
porém onipresente
as costas do trabalhador
são as que mais a sentem

fardo este pesado
que nos leva a servir
o todo poderoso Mercado
que ordena consumir.

Obama-Big-Brother

5 FRASES DE NELSON MANDELA QUE A GRANDE MÍDIA PREFERE ESCONDER

Esta semana o mundo perdeu um dos maiores líderes da História. Nelson Mandela faleceu quinta-feira, no dia 5 de dezembro de 2013, aos 95 anos, em Pretória, África do Sul. Principal agente político do fim do apartheid e da abertura política de seu país, sua morte gerou comoção mundial e a mídia o tem tratado como unanimidade.

O que é questionável porém é a descaracterização de sua postura política, o esvaziamento de sua ideologia e a exposição deste homem somente como um quase santo o qual fomentou as tão importantes mudanças em seu país sendo apolítico e pacífico sob quaisquer condições, este retrato não condiz com a realidade. Essa estratégia de alguns setores da mídia conservadora visa tão somente a neutralização de sua influência perante o atual cenário e configuração política de nossa sociedade.

Diante destas constatações nada melhor que conhecermos Madiba por suas próprias palavras, termos conhecimento real dos posicionamentos deste personagem que marcou a humanidade. Abaixo seguem cinco citações dele que dificilmente você verá divulgadas na Grande Mídia:

1. “Nós concordamos com as Nações Unidas quando esta declara que disputas internacionais devem ser solucionadas por vias pacíficas. A postura beligerante adotada pelo governo de Israel é inaceitável a nós. Se temos de nos referir a qualquer uma das partes como Estado terrorista, devemos fazê-lo em relação ao governo Israelense, porque eles são os que estão massacrando árabes inocentes e indefesos nos territórios ocupados e não consideramos isto aceitável.”

2. “Nem Bush nem Tony Blair forneceram evidências da existência de armas deste tipo (no Iraque). Porém o que sabemos é que Israel possui armas de destruição em massa. Ninguém fala sobre isso. Qual a razão de possuirmos um parâmetro para um país, especialmente quando este é negro, e outro para outro país, Israel, que é branco?”

3. “Se existe um país o qual cometeu atrocidades inimagináveis pelo mundo este é o Estados Unidos da América. Eles não se importam com a humanidade.”

4. “Desde sua alvorada a Revolução Cubana tem sido fonte de inspiração a todos os povos amantes da liberdade. Admiramos os sacrifícios do povo cubano em manter sua independência e soberania diante do imperialismo imoral que arquiteta campanhas que visam destruir o impressionante avanço realizado desde a Revolução Cubana. Vida longa a Revolução Cubana. Vida longa ao camarada Fidel Castro.”

5.  “A pobreza massiva e a desigualdade obscena são terríveis chagas de nossos tempos – tempos os quais o mundo galga impressionantes avanços na ciência, tecnologia, indústria e acumulação de riqueza – porém ainda assim temos de conviver com a escravidão e o apartheid. Dar fim a pobreza não é um gesto de caridade. É um ato de justiça. É a proteção de um direito humano fundamental, o direito a dignidade e a uma vida decente. Enquanto a pobreza existir não há liberdade genuína.”

As citações foram retiradas do original em inglês encontrado em: http://www.existenceisresistance.org/archives/3091

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A GRANDE MÍDIA, A INFLAÇÃO E O CÍRCULO FECHADO DE DEBATE

O ano de 2013 trouxe consigo a questão da inflação novamente a tona nos debates econômicos de nosso país. A Grande Mídia noticiou de forma barulhenta o retorno do fantasma, explorou mais a emoção do que a racionalidade da população ao tocar neste assunto, tanto o é que em nenhum mês o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) atingiu a casa dos 1%, a última acumulada divulgada em outubro deste ano auferiu 4,3%[1] de inflação em 2013.

O propósito deste artigo porém não é analisar a pressão da demanda sobre a oferta em nosso país. O que se pretende é questionar o quão aberto está o debate acerca da economia nacional na Grande Mídia. Se é possível que outras perspectivas que não a liberal clássica possuam voz na hora de propor soluções a problemática econômica brasileira.

Considerando que a expansão da renda do brasileiro médio e os programas assistencialistas governamentais deram força a demanda e que nosso país é carente de investimentos em ganhos de produtividade tanto do setor público quanto privado, é plausível que a pressão inflacionária seja real, e não somente fruto de especulações midiáticas.

Neste contexto, o COPOM (Conselho de Política Monetária) elevou continuamente a taxa básica de juros, a SELIC, desde abril e alcançamos os 10% de juros na última reunião, como pode ser observado no gráfico abaixo, esta é considerada alta.

Historico-Selic-meta-2013-111

E é neste ponto que a carência do debate é sentida.

Os economistas que analisam esta situação na Grande Mídia parecem desconhecer outras linhas de atuação que não a elevação da SELIC para combater a inflação. Desconsidera-se desta maneira outras questões concernentes a nossa economia que podem retroalimentar os juros. Quando aumentamos a taxa básica de juros, o Estado passa a destinar maior fatia do orçamento para cumprir os compromissos assumidos com os títulos da dívida pública.

Ano passado 43,98% do orçamento foi gasto em juros da dívida, cada aumento de 1% da SELIC aumenta[2] os gastos com juros em 20 bilhões de reais ao longo de um ano. O sequestro do orçamento por parte dos juros aumenta a relação dívida/PIB, o que irá requerer ainda mais aumento dos juros posteriormente. Não obstante, o comprometimento exorbitante com os juros sufoca o Estado, as possibilidades de investimentos em infraestrutura, saúde e educação os quais nosso país é tão carente tornam-se ainda mais difíceis. O gráfico abaixo é do orçamento de 2012 e evidencia o quão nossas contas estão envolvidas em pagamentos de juros.

Orcamento-2012

Neste ponto, entra a influência negativa da mídia corporativa, oligárquica que existe em nosso país. O debate, as opiniões são sempre restringidos ao espectro interessante a própria oligarquia detentora de poder político e econômico. Chomsky já havia diagnosticado esta medida como forma eficiente de manipulação da opinião pública.

A solução de combate a inflação que não é mencionada nestes meios é o aumento do compulsório que os bancos devem depositar no Banco Central do Brasil. Esta medida retira dinheiro do mercado, o que reduz a pressão sobre a oferta sem sacrificar as contas públicas, os investimentos sociais.

Esta solução porém, não aumenta a fatia de nosso dinheiro que volta aos credores, não engorda os bolsos dos rentistas, não é de admirar que não seja mencionada na Grande Mídia.

Este quadro demonstra o quanto a democratização da mídia, a Ley de Medios que a Argentina vem implementando é necessária também para nós. A necessidade de ampliação do espectro de visões que influem no debate midiático dará mais robustez a nossa democracia, a fará responder com maior eficiência aos anseios da população.

Referências:

[1] http://www.calculador.com.br/tabela/ipca
[2] http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Divida-publica-e-juros-coquetel-explosivo/29667