2014, retificando Orwell

Visão além do tempo
profecia fria e certa
Orwell nos deixou
é somente incorreta
a descrição, o que o nomeou

o Grande Irmão tomou forma
diferente da de um homem
e seu olho pouco importa
pois tem Mão poderosa

Mão esta invisível
porém onipresente
as costas do trabalhador
são as que mais a sentem

fardo este pesado
que nos leva a servir
o todo poderoso Mercado
que ordena consumir.

Obama-Big-Brother

A GRANDE MÍDIA, A INFLAÇÃO E O CÍRCULO FECHADO DE DEBATE

O ano de 2013 trouxe consigo a questão da inflação novamente a tona nos debates econômicos de nosso país. A Grande Mídia noticiou de forma barulhenta o retorno do fantasma, explorou mais a emoção do que a racionalidade da população ao tocar neste assunto, tanto o é que em nenhum mês o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) atingiu a casa dos 1%, a última acumulada divulgada em outubro deste ano auferiu 4,3%[1] de inflação em 2013.

O propósito deste artigo porém não é analisar a pressão da demanda sobre a oferta em nosso país. O que se pretende é questionar o quão aberto está o debate acerca da economia nacional na Grande Mídia. Se é possível que outras perspectivas que não a liberal clássica possuam voz na hora de propor soluções a problemática econômica brasileira.

Considerando que a expansão da renda do brasileiro médio e os programas assistencialistas governamentais deram força a demanda e que nosso país é carente de investimentos em ganhos de produtividade tanto do setor público quanto privado, é plausível que a pressão inflacionária seja real, e não somente fruto de especulações midiáticas.

Neste contexto, o COPOM (Conselho de Política Monetária) elevou continuamente a taxa básica de juros, a SELIC, desde abril e alcançamos os 10% de juros na última reunião, como pode ser observado no gráfico abaixo, esta é considerada alta.

Historico-Selic-meta-2013-111

E é neste ponto que a carência do debate é sentida.

Os economistas que analisam esta situação na Grande Mídia parecem desconhecer outras linhas de atuação que não a elevação da SELIC para combater a inflação. Desconsidera-se desta maneira outras questões concernentes a nossa economia que podem retroalimentar os juros. Quando aumentamos a taxa básica de juros, o Estado passa a destinar maior fatia do orçamento para cumprir os compromissos assumidos com os títulos da dívida pública.

Ano passado 43,98% do orçamento foi gasto em juros da dívida, cada aumento de 1% da SELIC aumenta[2] os gastos com juros em 20 bilhões de reais ao longo de um ano. O sequestro do orçamento por parte dos juros aumenta a relação dívida/PIB, o que irá requerer ainda mais aumento dos juros posteriormente. Não obstante, o comprometimento exorbitante com os juros sufoca o Estado, as possibilidades de investimentos em infraestrutura, saúde e educação os quais nosso país é tão carente tornam-se ainda mais difíceis. O gráfico abaixo é do orçamento de 2012 e evidencia o quão nossas contas estão envolvidas em pagamentos de juros.

Orcamento-2012

Neste ponto, entra a influência negativa da mídia corporativa, oligárquica que existe em nosso país. O debate, as opiniões são sempre restringidos ao espectro interessante a própria oligarquia detentora de poder político e econômico. Chomsky já havia diagnosticado esta medida como forma eficiente de manipulação da opinião pública.

A solução de combate a inflação que não é mencionada nestes meios é o aumento do compulsório que os bancos devem depositar no Banco Central do Brasil. Esta medida retira dinheiro do mercado, o que reduz a pressão sobre a oferta sem sacrificar as contas públicas, os investimentos sociais.

Esta solução porém, não aumenta a fatia de nosso dinheiro que volta aos credores, não engorda os bolsos dos rentistas, não é de admirar que não seja mencionada na Grande Mídia.

Este quadro demonstra o quanto a democratização da mídia, a Ley de Medios que a Argentina vem implementando é necessária também para nós. A necessidade de ampliação do espectro de visões que influem no debate midiático dará mais robustez a nossa democracia, a fará responder com maior eficiência aos anseios da população.

Referências:

[1] http://www.calculador.com.br/tabela/ipca
[2] http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Divida-publica-e-juros-coquetel-explosivo/29667

RÚSSIA ORDENA ATAQUE A ARÁBIA SAUDITA, CASO OCIDENTE ATAQUE A SÍRIA

Ontem, dia 27 de agosto de 2013, o escritório do presidente da Rússia, Vladimir Putin expediu um memorando as Forças Armadas ordenando uma ação militar massiva contra a Arábia Saudita[1] no caso do Ocidente (EUA, Inglaterra e França) atacar a Síria. Tropas americanas já começam a ocupar posições estratégicas em relação à Síria[2].
De acordo com o Kremlin, essa ordem de guerra veio em resposta a reunião do presidente Putin com o príncipe saudita Bandar bin Sultan, que teria afirmado que se a Rússia não aceitasse a queda do atual governo sírio comandado por Bahsar Al Assad, a Arábia Saudita iria permitir aos terroristas chechenos sob seu controle ações de assassinato em massa e promoção do caos em território russo durante os Jogos Olímpicos de Inverno previstos para 2014.
Em tom insinuante, o príncipe saudita teria dito: “Posso garantir a completa segurança dos Jogos Olímpicos de Inverno do ano que vem. Os extremistas chechenos que ameaçam a segurança dos jogos são controlados por nós”[3]. Além de alianças políticas, Bandar bin Sultan teria tocado na questão energética na reunião de portas fechadas,  nas transcrições não autorizadas consta a seguinte afirmação: “Examinemos como podemos unificar uma estratégia de cooperação Rússia-Arábia Saudita no tópico do petróleo. A intenção é em concordar no preço e quantidade produzida de maneira que mantenha o mercado global de petróleo estável”[3]. Essa declaração parece oferecer uma aliança entre a OPEC e a Rússia, no caso de mudanças estratégicas russas em relação à Síria. Putin assim teria replicado: “Nossa posição em relação a Assad nunca mudará. Acreditamos que o atual regime responde pelos interesses do povo sírio, e não estes canibais”. O presidente russo se referiu assim aos insurgentes por conta do vídeo[4] do dia 15 de maio, no qual um rebelde sírio extrai o coração de um soldado governista e aparenta come-lo.
Digno de nota, é o documento vazado[5] por Bradley Manning ao Wikileaks, no qual o serviço de inteligência americana ainda em 2006 discorre da seguinte maneira sobre Assad: “Ações que causem a instabilidade e aumentem sua insegurança são de nosso interesse…”. O que leva a suspeitas sobre os pronunciamentos da Casa Branca como o do vice-presidente Joe Biden que ontem declarou[6] não haver dúvidas de que o regime sírio teria usado armas químicas contra a população.
Com os eventos saindo de controle na Síria, o jornal britânico The Independent publicou[7] na segunda feira que o príncipe saudita, de estreitas relações com os EUA, tem trabalhado no suporte as facções rebeldes sírias, fornecendo inclusive armas e treinamentos na busca da derrubada do presidente Bashar Al-Assad. O jornalista independente Ben Swann apurou[8] ainda em junho que a organização terrorista Al-Qaeda estaria atuando em apoio aos rebeldes sírios. Ainda neste contexto, o ministro das relações exteriores russo, Aleksandr Lukashevich, alertou[9] que: “Tentativas de ignorar o Conselho de Segurança, para mais uma vez criar situações artificiais que deem justificativas para uma intervenção militar na região causarão ainda mais sofrimento na Síria e catastróficas consequências para outros países do Oriente Médio e do norte da África”.
Alheios às declarações russas, o premiê britânico David Cameron convocou[9] novamente o parlamento para a votação sobre o ataque em solo sírio. Enquanto o presidente Obama cancelou[10] abruptamente uma reunião entre diplomatas russos e americanos prevista para hoje. Segundo a CBS, a reunião possuía a intenção de traçar medidas com o objetivo de encerrar a guerra civil na Síria.
O governo sírio alertou[11] nesta segunda por meio do ministro das relações exteriores, Faisal Mikdad, que uma intervenção de americanos e aliados poderia gerar grande ameaça à paz mundial. Diante desta configuração geopolítica, tudo indica que qualquer ataque a Síria será considerado pelo Kremlin um ataque à Rússia.
Segundo o The European Union Times, este ataque à Síria, liderado pela Arábia Saudita, Qatar e os aliados ocidentais tem o objetivo de quebrar o domínio russo sobre o mercado de gás natural, com a construção de um gasoduto em território sírio[1].
Sobre as tentativas de derrubada do governo sírio e o ataque químico[12] ocorrido no dia 21 em Damasco, o qual vitimou mais de 1.300 pessoas, o ministro das relações exteriores russo analisou[13] como sendo uma ação planejada de incriminação do governo por parte dos interessados na queda do regime.
As circunstâncias indicam que mais uma vez o Ocidente e aliados premeditaram ações de justificativa a intervenção militar, com vistas ao domínio de recursos energéticos, isso soa muito familiar.

Este artigo é adaptado do original em inglês disponível em: http://www.eutimes.net/2013/08/putin-orders-massive-strike-against-saudi-arabia-if-west-attacks-syria/
Ataque químico Síria 21-08-13
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Referências:
[1] http://www.eutimes.net/2013/08/putin-orders-massive-strike-against-saudi-arabia-if-west-attacks-syria/
[2] http://pt.euronews.com/2013/08/27/siria-forcas-militares-do-ocidente-ja-ocupam-posices-estrategicas/
[3] http://www.telegraph.co.uk/finance/newsbysector/energy/oilandgas/10266957/Saudis-offer-Russia-secret-oil-deal-if-it-drops-Syria.html
[4] http://thelibertarianrepublic.com/video-syrian-rebel-cuts-out-soldiers-heart-and-eats-it-nsfw/
[5] http://www.wikileaks.org/plusd/cables/06DAMASCUS5399_a.html#efmBA8BJR
[6] http://noticias.terra.com.br/mundo/estados-unidos/biden-diz-nao-ter-duvida-de-que-governo-sirio-usou-armas-quimicas,e1517d5318eb0410VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html
[7] http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/syria-the-saudi-connection-the-prince-with-close-ties-to-washington-at-the-heart-of-the-push-for-war-8785049.html?printService=print
[8] http://benswann.com/what-the-media-isnt-telling-you-about-syrian-civil-war/
[9] http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/syria-crisis-uk-and-us-vow-that-any-military-response-is-not-about-regime-change-as-parliament-is-recalled-to-vote-on-intervention-8785140.html
[10] http://www.cbsnews.com/8301-202_162-57600192/source-u.s-postpones-meeting-with-russia-about-syria/
[11] http://www.cbsnews.com/8301-202_162-57600101/fearing-a-u.s-strike-syria-warns-of-global-chaos/
[12]http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2013/08/21/interna_mundo,383633/mais-de-1-300-pessoas-morreram-no-ataque-quimico-na-periferia-de-damasco.shtml
[13] http://rt.com/news/syria-chemical-prepared-advance-901/

O LIBERALISMO TORNOU-SE UMA RELIGIÃO, SEM HIPÉRBOLES

A História nos mostra uma série de propostas, teorias e sistemas que nos ajudaram a progredir e que se tornaram decadentes, contraproducentes e exploradores. O liberalismo econômico decai.  E decai porque se tornou imperativo, porque invadiu esferas que não econômicas, todas as relações passaram a ser vistas pelo prisma do mercado.
É possível caracteriza-lo como religião em muitos pontos. Seus sacerdotes são os economistas, seus templos são as corporações, e seu deus naturalmente é o mercado. Não se trata de exagero, pergunte, por exemplo, a um padre ou pastor sobre um problema, ele lhe dirá para entrega-lo nas mãos de Deus. Faça o mesmo com um neoliberal, este lhe dirá para entrega-lo nas mãos do mercado.
A analogia não para por aí. Comparemos com os expansionismos praticados pela Igreja Católica Apostólica Romana por exemplo. Esta possui programas de evangelização que duram até os dias de hoje, assistimos há pouco tempo a JMJ em nosso país, mas desde o descobrimento do novo mundo temos doutrinação dos povos nativos na América. O liberalismo que se propõe como diz a palavra, a “liberar”, na prática é imperialista. A América Latina, e a África e mais recentemente o Oriente Médio, sofreram e sofrem investidas do Ocidente, que por meio de bombas, metralhadoras e ditaduras, trazem a “democracia de mercado”, a “salvação dos pobres”.
Os princípios do mercado ultrapassaram a esfera econômica, exemplo disso é o fato do Brasil subsidiar seguradoras de saúde, em detrimento do SUS. Nossa constituição diz no artigo 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Realmente não é o que vemos na prática, a saúde passou de direito a mercadoria, o que também corrobora com isso é o fato dos políticos terem planos de saúde garantidos por dinheiro público.
E o mercado não pretende parar por aí, expoentes do anarco-capitalismo, como Rothbard no exterior, e Daniel Fraga no Brasil, defendem abertamente até a venda de órgãos no livre mercado. Baudelaire já observava no século XIX o seguinte: “… sobretudo para os homens de negócios, aos olhos de quem a natureza existe apenas em suas relações de utilidade com seus negócios, o fantástico real da vida acha-se singularmente embotado.”
Não é somente a saúde humana que cobra sua fatura nesta “transação”. A saúde ambiental também se encontra debilitada. As mudanças climáticas, a poluição ambiental também é inquestionável fruto desse impulso consumista.
As emissões de carbono modificam as concentrações de gases na atmosfera, que responde aumentando o efeito estufa. A nossa incompetência de lidar com os resíduos desta imensa produção acabam por poluir os mananciais, quando falamos dos resíduos orgânicos. No caso dos sólidos, criamos um gigantesco lixão no oceano Pacífico.
Podemos dar um exemplo de desrespeito à saúde humana e ambiental simultâneos, este é o caso do desastre de Bhopal, na Índia. Em 1984, na madrugada de 2 para 3 de dezembro, cerca de 40 toneladas de gases letais vazaram da fábrica da Union Carbide Corporation, em três dias mais de 8000 pessoas já haviam morrido pela exposição, a Union Carbide simplesmente abandonou o local, deixando-o totalmente contaminado. Atualmente mais de 150.000 pessoas sofrem de doenças crônicas por conta do acidente. O caso não pôde ser julgado na Índia por pressões dos EUA, que o assumiu e fixou indenizações que variaram entre 370 e 533 dólares, o que não cobriu nem metade das despesas médicas. Este caso não foi o único.
Ainda na questão da produção, o que mais chama atenção e contesta o dogma do livre mercado é a obsolescência programada. Teóricos desta corrente afirmam que a concorrência força os produtores a cada vez mais aumentarem a qualidade de seus produtos, e o que mais é observado são principalmente aparelhos com prazo de validade bem curto, e que depois de quebrado, não possuem concerto, o que nos leva novamente ao consumo.
A finalidade foi distorcida. Prova disso é que a máxima utilitarista pilar moral do liberalismo, já não é atendida. Bentham assim definiu: “Por princípio da utilidade, entendemos o princípio segundo o qual toda a ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função da sua tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela ação”. Considerando o quadro de integração global, e a situação de desigualdade persistente entre os povos, é claro que o bem-estar de grande parte dos envolvidos na ação não vem sendo considerado. Emblemático fato que corrobora com esta afirmação é o lucro do maior banco privado brasileiro, o Itaú, que foi de nada menos que 7,055 bilhões. Maior que o PIB de 33 países.
Precisamos redefinir as relações econômicas, políticas, ambientais e sociais. A independência produtiva, a descentralização do poder, o respeito aos princípios ambientais, e a relação social como um fim em si mesma parecem ser o norte que devemos definir para renovação de nossa sociedade, e consequente garantia do nosso bem-estar, e do das gerações futuras.
Bhopal disaster
Algumas das milhares vítimas da Union Carbide Corporation.

Referências: (Na sequência do artigo)
http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2011/11/ubsidio-publico-dos-planos-de-saude-e-uma-caixa-preta-diz-especialista-na-area (Matéria, subsídios à saúde privada)
http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf196a200.htm (Artigo 196 à 200 CF 1988)
http://www.youtube.com/watch?v=lU-Q3D3sv5E (Discurso pró venda de órgãos, de Daniel Fraga)
Baudelaire, Charles. Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. 70 páginas. (Coleção leitura). Capítulo IV, página 27.
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1003163-5602,00.html (Reportagem, lixão do Oceano Pacífico)
http://www.greenpeace.org.br/bhopal/docs/Bhopal_desastre_continua.pdf (Matéria, Desastre de Bhopal)
Bentham, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. 248 páginas.
Capítulo I, página 14. http://socserv.mcmaster.ca/econ/ugcm/3ll3/bentham/morals.pdf
http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/07/30/lucro-do-itau-no-1-semestre-e-maior-que-o-pib-de-32-paises.htm (Matéria, lucro do Itaú)

A DISTORÇÃO DE FINALIDADE DO LIBERALISMO

A crise econômica que nosso mundo enfrenta desde 2008 fez inúmeras dúvidas surgirem no tocante às crenças do liberalismo econômico. O Brasil está passando por ela com relativa estabilidade, estamos em pleno emprego, a inflação tem assustado alguns, mas não há possibilidade dela desandar como nos anos 80. A Europa, no entanto, é quem mais sofre seus efeitos. Países como Grécia e Portugal têm sofrido sérios recuos tanto econômica, quanto socialmente, os portugueses enfrentam 17,7% de desemprego, os gregos 26,9%, e estes níveis sobem. O cenário é de estagflação, ou seja, o PIB recua e a inflação sobe. Estes fatos expõem as contradições dos princípios econômicos vigentes. A austeridade econômica não está surtindo efeito em termos de recuperação.
Esta contextualização tem o objetivo de dar bases a um questionamento das diretrizes econômicas mundiais, que influenciadas por movimentos liberais, basicamente creem que quanto mais desregulado é o mercado, maior é a prosperidade. A crença na auto regulação econômica com raízes na teoria da mão invisível de Adam Smith parecia realmente ser a saída mais sensata para os dois caminhos que o mundo tomou no século passado, o Nazismo e o Stalinismo, regimes totalitários que se mostraram trágicos e sangrentos.
A liberação do mercado foi profunda e realmente gerou crescimento, porém não desenvolvimento, o que assistimos foi o aumento da desigualdade na sociedade, e esta sempre leva a efeitos sociais prejudiciais em relação à violência. Fato é que o liberalismo tornou-se tão imperativo e inquestionável que este ultrapassou a esfera econômica e invadiu as relações sociais e políticas. O que pretendia ser um meio para nos tornar prósperos, tornou-se o fim de nossas ações. Tudo passou a ser regido pelos princípios do mercado, uma nova forma de totalitarismo, mais sutil, porém de força reconhecidamente grande.
O que observamos é o enfraquecimento do governo e o surgimento da governância, que se manifesta na prioridade dos interesses privados em relação aos públicos. A governância abriu espaço aos interesses financeiros, o que corrobora com esta visão são os largos benefícios concedidos as grandes corporações e bancos. Que por sua vez praticam lobby, o que se traduz em leis praticamente escritas pelos próprios, nas palavras do filósofo Dany-Robert Dufour, esta é a “ditadura dos acionistas”.
Constatada essa distorção liberal sofrida pela nossa sociedade, essa ditadura sutil dos interesses do mercado, devemos então assumir as rédeas da situação. É hora de retraçar o trajeto e definir metas claras. A economia é somente uma ferramenta, sua utilidade e finalidade é nos trazer desenvolvimento e bem estar.

“O liberalismo se plasma como um novo totalitarismo porque pretende gerir o conjunto das relações sociais. Nada deve escapar à ditadura dos mercados e isso converte o liberalismo em um novo totalitarismo que segue os dois anteriores. É então um novo caminho sem saída histórico. O liberalismo explorou o ser humano.”
Dany-Robert Dufour
2008 crisis

Referências:

http://www.tradingeconomics.com/greece/indicators
http://www.tradingeconomics.com/portugal/indicators
http://www.tradingeconomics.com/greece/unemployment-rate
http://www.tradingeconomics.com/portugal/unemployment-rate
http://www.conversaafiada.com.br/economia/2012/01/08/dufour-quem-vira-depois-do-liberalismo/
Conferência de Dany-Robert Dufour, “O Divino Mercado”, em 08/08/2009, promovida pelo Círculo Psicanálitico do Rio de Janeiro CPRJ.

DA DESONESTIDADE OU IMBECILIDADE INTELECTUAL DO INSTITUTO MISES BRASIL

Este breve artigo tem como objetivo demonstrar o erro intencional ou não do IMB neste artigo que fala sobre o suposto erro que nas palavras do próprio Instituto foi:

“um erro extremamente básico, um erro que possui monumentais consequências e que mudou o mundo para sempre.”

Reparem no tom ridicularizador e sensacionalista do comentário sobre o suposto erro, quando o autor afirma que mudou o mundo para sempre, obviamente pretende desacreditar tão importantes autores e dar credibilidade a corrente teórica seguida pelo próprio. Segundo Juan Fernando Carpio, mestre em economia autor deste artigo que se encontra no site do IMB, Karl Marx e Adam Smith cometeram o erro de confundir os conceitos de salário e lucro, atribuindo ao lucro o conceito de salário, nas próprias palavras do autor:

“Adam Smith nos diz que, em condições primitivas ou em cidades pequenas, aqueles indivíduos que vão ao mercado para vender seus produtos (sejam eles produtos agrícolas, parte do seu rebanho ou mesmo produtos manufaturados) ganham, nesse processo de venda, um salário. Isto é, a renda auferida por esses indivíduos que vendem bens no mercado é o seu salário.

Salário? Grave erro. Aquilo que é obtido por alguém que sai da autossuficiência agrícola para vender seus produtos no mercado não é um salário, mas, sim, um lucro.  Ou um prejuízo.  Lucros ou prejuízos são obtidos apenas por empreendedores.”

Como se não bastasse, o autor nem mesmo discorre sobre onde Marx definiu os ganhos do empreendedor como salário. Com duas citações, uma de Marx e outra de Smith, de obras de grande reconhecimento, desconstruo a argumentação do autor, são estas:

“Os proprietários da simples foça de trabalho, os proprietários do capital e os proprietários de terras, cujas respectivas fontes de renda são os salários, lucros e a renda imobiliária, em outras palavras, os trabalhadores assalariados, os capitalistas e os donos das terras formam as três grandes classes da sociedade moderna, baseada no sistema capitalista de produção.”¹

“Todo o produto anual da terra e do trabalho de cada país… divide-se, naturalmente… em três partes; a renda da terra, os salários do trabalho e os lucros do dinheiro; e constitui uma renda para três ordens diferentes de pessoas; para aquelas que vivem de rendas, para aquelas que vivem de salários e para aquelas que vivem do lucro. Estas são as três grandes originais e componentes de toda sociedade civilizada, de cuja renda deriva finalmente a de qualquer outra forma.”²

Link do artigo do IMB: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=909
¹ Karl Marx, Capital, III, traduzido da primeira edição alemã para o inglês por Ernest Untermann (Chicago: Kerr, 1909), 1031
²Adam Smith, The Wealth of Nations (Londres: Dent Everyman Edition, 1910), pág 230