O termômetro dos nossos dias

A desintegração da persistência da memória. Salvador Dali, 1954

Por Rennan Martins

Se engana aquele que julga ser preciso livros pra conhecer o mundo. Ele acontece e se mostra, a todo instante, diante dos nossos olhos

Impressiona aqueles que não notam a história, este espetáculo que ultrapassa todos os limites da ficção, acontecer incessantemente. As diversas interações sociais a pleno vapor, em todos os âmbitos, encantam e são dignos de nota.

Começo pelo fato que moveu minha escrita. Estou em Brasília, já passam das 2:30 da manhã de um 25 de maio, e chove.

A capital brasileira é conhecida por duas estações bem definidas de seca e chuva e se o clima não estivesse mudando tanto, a secura reinaria nesta época, sangrando o nariz dos forasteiros.

Que será que as mudanças climáticas, que só começaram, nos trarão com o presumível ganho de vigor? As previsões são pessimistas.

Continuando no clima. Se por aqui a água desequilibra a dinâmica do Cerrado, em São Paulo assistimos o Cantareira esvair-se, com o volume morto já em uso. Não foi somente a chuva que não veio, o grau de impermeabilização da localidade é tão alto que o ciclo hidrológico tem um deficit considerável de infiltração, que se transforma em enchentes e inundações.

Provavelmente encontraremos uma saída para esta questão crucial, mas temos o dever de procurar soluções de menor custo humano possível.

No campo político internacional, o cenário é o de um império, a saber, o norte-americano, se debatendo diante da perda de poder.

No ano em que nasci os ianques venciam a dura guerra contra os soviéticos, alcançando o auge. O intelectual de prateleira, Fukuyama, chegou a anunciar o fim da história, pra regozijo de seu amo.

Pouco mais de 22 anos depois de Gorbachev assinar a dissolução da URSS, seu arqui-inimigo à época vigia todo o planeta no objetivo de auferir ganhos e manter posição. Emblemático neste ponto é a última revelação do Wikileaks desta semana, que nos mostrou que todas as ligações do México, Bahamas, Filipinas, Quênia e Afeganistão são monitoradas.

Só que com essa prática estão a cruzar a linha do temor, alcançando a do ódio, o que os sentencia a queda, como ensinou Maquiavel.

A ascensão de uma ordem multipolar reflete a demanda dos desafios que temos a frente.

Com o capitalismo liberal conseguimos a fartura, que colateralmente trouxe a crise ambiental e um abismo social crescente.

Esta problemática só será superada por princípios coletivistas e colaborativos.

O LIBERALISMO TORNOU-SE UMA RELIGIÃO, SEM HIPÉRBOLES

A História nos mostra uma série de propostas, teorias e sistemas que nos ajudaram a progredir e que se tornaram decadentes, contraproducentes e exploradores. O liberalismo econômico decai.  E decai porque se tornou imperativo, porque invadiu esferas que não econômicas, todas as relações passaram a ser vistas pelo prisma do mercado.
É possível caracteriza-lo como religião em muitos pontos. Seus sacerdotes são os economistas, seus templos são as corporações, e seu deus naturalmente é o mercado. Não se trata de exagero, pergunte, por exemplo, a um padre ou pastor sobre um problema, ele lhe dirá para entrega-lo nas mãos de Deus. Faça o mesmo com um neoliberal, este lhe dirá para entrega-lo nas mãos do mercado.
A analogia não para por aí. Comparemos com os expansionismos praticados pela Igreja Católica Apostólica Romana por exemplo. Esta possui programas de evangelização que duram até os dias de hoje, assistimos há pouco tempo a JMJ em nosso país, mas desde o descobrimento do novo mundo temos doutrinação dos povos nativos na América. O liberalismo que se propõe como diz a palavra, a “liberar”, na prática é imperialista. A América Latina, e a África e mais recentemente o Oriente Médio, sofreram e sofrem investidas do Ocidente, que por meio de bombas, metralhadoras e ditaduras, trazem a “democracia de mercado”, a “salvação dos pobres”.
Os princípios do mercado ultrapassaram a esfera econômica, exemplo disso é o fato do Brasil subsidiar seguradoras de saúde, em detrimento do SUS. Nossa constituição diz no artigo 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Realmente não é o que vemos na prática, a saúde passou de direito a mercadoria, o que também corrobora com isso é o fato dos políticos terem planos de saúde garantidos por dinheiro público.
E o mercado não pretende parar por aí, expoentes do anarco-capitalismo, como Rothbard no exterior, e Daniel Fraga no Brasil, defendem abertamente até a venda de órgãos no livre mercado. Baudelaire já observava no século XIX o seguinte: “… sobretudo para os homens de negócios, aos olhos de quem a natureza existe apenas em suas relações de utilidade com seus negócios, o fantástico real da vida acha-se singularmente embotado.”
Não é somente a saúde humana que cobra sua fatura nesta “transação”. A saúde ambiental também se encontra debilitada. As mudanças climáticas, a poluição ambiental também é inquestionável fruto desse impulso consumista.
As emissões de carbono modificam as concentrações de gases na atmosfera, que responde aumentando o efeito estufa. A nossa incompetência de lidar com os resíduos desta imensa produção acabam por poluir os mananciais, quando falamos dos resíduos orgânicos. No caso dos sólidos, criamos um gigantesco lixão no oceano Pacífico.
Podemos dar um exemplo de desrespeito à saúde humana e ambiental simultâneos, este é o caso do desastre de Bhopal, na Índia. Em 1984, na madrugada de 2 para 3 de dezembro, cerca de 40 toneladas de gases letais vazaram da fábrica da Union Carbide Corporation, em três dias mais de 8000 pessoas já haviam morrido pela exposição, a Union Carbide simplesmente abandonou o local, deixando-o totalmente contaminado. Atualmente mais de 150.000 pessoas sofrem de doenças crônicas por conta do acidente. O caso não pôde ser julgado na Índia por pressões dos EUA, que o assumiu e fixou indenizações que variaram entre 370 e 533 dólares, o que não cobriu nem metade das despesas médicas. Este caso não foi o único.
Ainda na questão da produção, o que mais chama atenção e contesta o dogma do livre mercado é a obsolescência programada. Teóricos desta corrente afirmam que a concorrência força os produtores a cada vez mais aumentarem a qualidade de seus produtos, e o que mais é observado são principalmente aparelhos com prazo de validade bem curto, e que depois de quebrado, não possuem concerto, o que nos leva novamente ao consumo.
A finalidade foi distorcida. Prova disso é que a máxima utilitarista pilar moral do liberalismo, já não é atendida. Bentham assim definiu: “Por princípio da utilidade, entendemos o princípio segundo o qual toda a ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função da sua tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela ação”. Considerando o quadro de integração global, e a situação de desigualdade persistente entre os povos, é claro que o bem-estar de grande parte dos envolvidos na ação não vem sendo considerado. Emblemático fato que corrobora com esta afirmação é o lucro do maior banco privado brasileiro, o Itaú, que foi de nada menos que 7,055 bilhões. Maior que o PIB de 33 países.
Precisamos redefinir as relações econômicas, políticas, ambientais e sociais. A independência produtiva, a descentralização do poder, o respeito aos princípios ambientais, e a relação social como um fim em si mesma parecem ser o norte que devemos definir para renovação de nossa sociedade, e consequente garantia do nosso bem-estar, e do das gerações futuras.
Bhopal disaster
Algumas das milhares vítimas da Union Carbide Corporation.

Referências: (Na sequência do artigo)
http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2011/11/ubsidio-publico-dos-planos-de-saude-e-uma-caixa-preta-diz-especialista-na-area (Matéria, subsídios à saúde privada)
http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf196a200.htm (Artigo 196 à 200 CF 1988)
http://www.youtube.com/watch?v=lU-Q3D3sv5E (Discurso pró venda de órgãos, de Daniel Fraga)
Baudelaire, Charles. Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. 70 páginas. (Coleção leitura). Capítulo IV, página 27.
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1003163-5602,00.html (Reportagem, lixão do Oceano Pacífico)
http://www.greenpeace.org.br/bhopal/docs/Bhopal_desastre_continua.pdf (Matéria, Desastre de Bhopal)
Bentham, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. 248 páginas.
Capítulo I, página 14. http://socserv.mcmaster.ca/econ/ugcm/3ll3/bentham/morals.pdf
http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/07/30/lucro-do-itau-no-1-semestre-e-maior-que-o-pib-de-32-paises.htm (Matéria, lucro do Itaú)