Chicão no Circo

Por Rennan Martins

Seis e meia da manhã, o odor fétido do córrego invade as narinas de Chicão, que mesmo acostumado ao cheiro acaba por acordar, pois a água já estava molhando seu surrado colchão e todo o chão do barraco. Indiferente, caminha em seu domicílio e abre o armário da cozinha, um pouco de pó de café e alguns biscoitos de água e sal, sente uma ponta de rancor, fecha.
Vou ver se arrumo uma larica na padoca do seu Dito, dizem seus botões. Veste a bermuda, joga a camiseta por cima do ombro e toma os becos de seu bairro. O cheiro mais forte do esgoto quase lhe dá náuseas, à esquerda alguns cachorros disputam a alimentação no lixo, à direita algumas crianças brincam, sujando-se. Tudo nos conformes. Cruza com Leandro, amigo de infância, mas não o cumprimenta. Tá na nóia, vai pedir dinheiro… Imagina.
Chega à padaria do seu Benedito, dois homens de ar militar que estavam conversando com ele disfarçam e saem.
– E aí moleque, tem nada sobrando não, se adianta.
– Qual é, seu Dito, tô no aperto, só mais essa vez.
– Sou teu pai não.
– Tem nenhum serviço pra eu te adiantar não?
O ar de seu Dito se torna mais pesado com essa pergunta.
– Olha, tu tem ideia do que tá querendo, né?
– Tô ligado Ditão, cansei dessa vida, quero adiantar meu lado.
*
Seis e vinte e sete da manhã, Benedito, dono da padaria e empreendedor em ramos escusos, ouve fortes batidas no portão de seu estabelecimento e residência. Esses vermes de novo, advinha. Acende o cigarro e caminha lentamente, levanta o portão, os senhores entram sem nada dizer. A tensão denuncia a urgência do “pedido”.
– E aí ladrão, tem um serviço novo pra tu…
Dito traga profundamente o cigarro, quase se ouve o silêncio e apreensão.
– Han…
– Tu vai meter uma vagabunda no cativeiro…
– Já disse que só trafico, Morais.
– Quero saber não, se eu levar essa mijada tu vai junto.
– Porra Morais! Quer me foder?
– Segura tua onda aí, quer adiantar teu tranco?
Raiva e remorso invadem seu Benedito, que não as deixa transparecer aos homens da lei presentes.
– É quem?
– Isabela Oliveira.
Dito solta uma risada nervosa, traga.
– Dá nome aos bois Morais, filha de quem?
– Do coronel…
– Tá achando que sou teu faxineiro, caralho?!
– Vai fazer e ponto.
Os passos de Chicão são ouvidos na padaria.
*
Coronel Oliveira, linha dura da polícia militar. Conhecido pela honestidade, só tão grande quanto sua intolerância.
Na noite anterior chamou alguns de seus homens ao gabinete e os informou que estava ciente dos desvios de armamento do quartel, e que daria o devido procedimento aos fatos apurados.
Veremos, balbuciou Morais ao sair do gabinete.
*
Seu Dito desdobra a folha deixada em seu balcão, lê. Dirige um olhar sério a Chicão.
– Quer se adiantar? É desse jeito não.
– Caguei, bora que eu tô na função.
Benedito expõe o pedido dos senhores que acabaram de sair. Francisco ouve atentamente, medo e expectativa pulsam.
– Ganho o quê com isso?
– Vai ganhar, precisa saber mais que isso não…
*
Meio dia e quarenta e cinco. Da esquina ouve-se o sinal, movimentação na porta do colégio, agitação na mente do meliante. Três jovens caminham despreocupadas em direção à esquina. “Porra, o que eu faço com essas piranha?”
Como se já conhecesse o procedimento, sai do carro, revólver em punho, uma coronhada, um empurrão. Isabela no carona. Acelera ansiosamente pelas ruas, tentando algo difícil. Não parecer suspeito.
– Dá um pio que eu te passo!
Lágrimas involuntárias correm o rosto da moça.
Quatro e dezesseis. Senhora Oliveira liga para o coronel.
– Otávio, a Isabela avisou onde ia?
– Não, preciso desligar. Trabalho sério.
Nessa hora Otávio, o pai, liga para sua filha. Fora de área ou desligado. Tenta se acalmar, mas a vontade é sair à procura. O coronel não sabe com quem contar. Desconfiança, arrependimento. Entra em seu gabinete. Torce pra que este fato não tenha nenhuma ligação com sua denúncia.
“Se nada tiver sumido, Isabela também não vai”
Diz uma folha impressa.
*
Francisco, mais novo sequestrador de sua comunidade, não vê outra opção que não seja trancar a jovem em seu domicílio, descarta a possibilidade de sua mãe aparecer e escandalizar, sabe que os sumiços dela costumam demorar não menos de três dias. Estaciona o veículo cedido pelo contratante Dito em local discreto e segue com ela pelas vielas, sob constantes ameaças. Impossível julgar em qual dos dois há mais nervosismo.
-Só quero o dinheiro, tá me entendendo?
-Sim…
Isabela pensa em pedir pra não ser machucada, mas rapidamente chega à conclusão que não lembrá-lo da possibilidade é mais interessante.
*
Vinte e quarenta e um. Depois de muito rodar pela cidade na esperança de encontrar sua filha, imagina quem é o mais indicado a ajudar sem oferecer perigo à sua família, descobre que nenhum de seus colegas é confiável. Entra em casa.
-Cadê a Bela? O que tá acontecendo?
Tenho tudo sob controle, Elisa, afirma o coronel, tentando esquecer que é também o pai. É tamanho o esforço de parecer forte que nem repara em sua mulher tomando o papel de sua mão.
-Vou ligar agora pra polícia, Otávio!
-Eu sou a polícia, os outros são vermes.
-Como assim?
-Não posso contar com nenhum deles…
-Conta pra mim ao menos, é nossa filha… Isso não é uma operação.
Neste momento, o coronel sai de cena, quem fica é somente Otávio, abalado em suas convicções, inseguro perante o que fazer. Expõe toda a sequência de fatos que culminaram neste pesadelo, se tocar da pessoalidade do problema o tornou incapaz de assumir sua patente.
No primeiro momento que se põe a pensar na condição de pai lhe ocorre uma lembrança. O balbuciado de Morais invade sua mente, sente um impulso violento ordenando sua morte. As conjecturas que, a esta altura já não possuem controle, o advertem que antes da vingança é necessário salvar sua filha. Sai de casa outra vez.
*
Mais ou menos no mesmo horário, em um ponto qualquer da cidade, Morais toma cerveja atento ao noticiário, a entrevista que prestou após a polêmica prisão de um ladrão de galinha o perturba, pois, ao ser indagado do motivo da surra que aplicou ao detido desarmado, afirmou com veemência:
-Porque eu quis!
Pensava nas repercussões, pensava principalmente que não podia ser exonerado. Assiste a si próprio na tela da TV do bar, ouvindo sem discernir as palavras de apoio vindas de seu colega. Até que inicia, em seguida à sua aparição, a sessão de opinião da âncora do programa.
“Diante de um judiciário que protege os marginais e agride o cidadão de bem e seus protetores, diante de uma sociedade tomada pela violência à qual o Estado se omite, diante de uma indignação generalizada que clama pela justiça ainda que errônea, a atitude do cabo Morais é no mínimo compreensível. Não podemos confundir a ação de alguém que desesperadamente quer justiça com a de alguém que pratica a violência pura e gratuita. Este exagero da força, se assim pode ser considerado, deve ser creditado não a quem o praticou, mas sim a quem o provocou!”
Soa como música a seus ouvidos, alguns frequentadores o parabenizam, rapidamente muda de humor, sente-se um herói. Após ter certa segurança de que ainda tem emprego e que sua privilegiada posição em relação à lei continuará, se lembra da filha do coronel. Decide então se inteirar do andamento do serviço que contratou, liga para seu Dito que informa, por meio de códigos, que o rapto já ocorreu, desliga dizendo a ele que espere segunda ordem.
De uma mesa de canto, coronel Otávio, que ali chegou há poucos minutos, bebe água aparentando paciência, lançando seu olhar sobre o cabo Morais que, mesmo sob o efeito do álcool, consegue sentir a forte energia emitida. Se vira procurando de onde ela vem, avista seu superior. Tomado pela confiança transmitida pela relevante opinião proferida pela mídia, se senta ao lado de Otávio.
-Fala coronel, posso dispensar a formalidade militar nesta situação, né?
-Filho da puta, você vai me falar e vai ser agora cadê minha filha.
-Do que você tá falando? Por acaso isso é uma acusação?
-Quem está falando de lei aqui? Nós dois resolveremos isso é aqui mesmo.
-Tava vendo o jornal? Fiquei influente, melhor segurar sua onda…
-É o seguinte, Morais, já tenho cópias das auditorias distribuídas a alguns sob ordem de entregar à imprensa diante de qualquer fato estranho.
-Hum… Será?
-Nosso herói vai pagar pra ver?
A sensação do poder, da imunidade já o tinham apaixonado. Só de imaginar ser caguetado, sua postura já se afeta. -Que garantia eu tenho, coronel? Você vai me foder com ou sem família… Minha mãe vai chorar antes da sua.
-Olha só, Morais, estou pouco me fodendo pra tuas merda, só me leva até ela que eu calo a boca, e outra, a única certeza que você tem é que tá fodido se algo acontecer. Sabe que não terei nenhum motivo pra não fazer da sua vida um inferno ou pior.
Morais se cala, medita na óbvia constatação que sua pretensão não permitiu enxergar. Neste instante, um turbilhão de pensamentos o invade, repara em volta, seu colega sumiu, esperando assim não se comprometer. Imagina sua morte, imagina sua exoneração, sua prisão, e segura o impulso de acabar com Otávio ali mesmo.
-Vamo no teu carro buscar ela.
Otávio levanta sem reflexão, sob a força da paternidade. Tomam o caminho. Morais decide que é melhor descobrir o local do cativeiro pessoalmente. Somente avisa a Benedito que se encontra no portão pelo celular. Dito sai de sua casa, cambaleante de sono e cachaça.
-To te vendo muito esses tempos, Morais, gosto disso não.
-Vai perder tempo algum, só me diz onde o encarregado guardou o malote.
Benedito indica a eles como chegar no local, sente uma pontada de remorso em envolver Chicão neste lamaçal, o sono porém o vence e então volta a dormir.
Morais e Otávio, em alta tensão e dispostos às últimas consequências em nome de seus interesses conflitantes, seguem quase como parceiros pelos escuros caminhos da favela. Chegam onde parece ser o local indicado.
É aí então que Otávio é tomado pela sede de vingança, com uma voz dissimuladamente tranquila chama por Isabela, que solta um grito abafado em resposta, numa questão de segundos, ouve-se um disparo. Morais cai sem vida.
Adentra o cativeiro de sua unigênita, enxerga um rapaz tomado pelo medo, de pistola colada no ouvido da sequestrada. Cálculos então são feitos por todos os participantes. Chicão só pensa em não acabar como muitos que conheceu. Isabela só pensa em se desvencilhar de quem a usa como escudo.
Otávio então tem certeza, em um instante impossível de ser medido, que isolou Chicão em sua mira. Disparo.
Morre Chicão. Morre Isabela.
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Observações: Este conto teve seu esboço publicado anteriormente aqui mesmo neste blog em post intitulado “Mais um dia na vida de Chicão (Parte 1)“. Após finalizado, o enviei ao Passa Palavra que o publicou em primeira mão. A Revista Práxis, iniciativa do camarada George dos Santos também o replicou. Quanto à música de Gabriel o Pensador, só fiz este link posteriormente, mas é muito apropriada à proposta.

SOBRE A “INDEPENDÊNCIA” DA FOLHA POLÍTICA

Quando acessamos o site da agência de jornalismo “independente” de Folha Política nos deparamos imediatamente com este banner abaixo que impõe respeito e causa uma boa impressão, a de que haverá imparcialidade na hora do trato no assunto o qual se dedicam, a política. Uma análise mais detalhada porém nos revela fatos interessantes.
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Atentem por exemplo para o print extraído do artigo denominado “Globo recebeu mais de R$495 milhões de Dilma em 2012”. A manchete nos transmite a impressão de que nossa presidente está a influenciar a linha editorial da emissora por meio de pagamentos milionários. Se atentarmos porém ao corpo do artigo, notamos que o pagamento não foi realizado por Dilma nem pelo PT, e de que estes gastos na verdade tratam-se de “publicidade estatal”, ora, não diferenciar governo de Estado é um erro crasso que induz o leitor mais desatento ao engano. Continuemos então.
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Observem desta vez os anúncios de outros artigos relacionados ao assunto. A análise das manchetes novamente nos demonstram tendenciosidade. Quando trata-se do mensalão mineiro, no qual o PSDB é protagonista omite-se a informação que remete aos tucanos, quando porém o mensalão em questão é o do PT, o nome do ex-presidente Lula é citado. Uma proposta de jornalismo independente não deveria ou sempre ser genérica ou sempre ser específica para todos os atores políticos?imagem3

Finalizando a análise podemos consultar a seção de parceiros do site, lá encontramos como um deles o Movimento Contra Corrupção, que até para os mais distraídos deixa transparecer seu anti-petismo e indignação seletiva com a corrupção. Algumas conclusões pertinentes podem ser feitas após essas constatações.
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Abaixo deixo as referências as quais extraí os prints:

http://www.folhapolitica.org/2013/12/globo-recebeu-mais-de-r495-milhoes-de.html

http://www.folhapolitica.org/p/parceiros.html

Retificação: Anteriormente o artigo vinculava Folha Política ao grupo Uol por meio de um print de um anúncio e fazia conexão com a linha editorial da Folha de São Paulo, que pertence ao grupo. A ajuda de um leitor porém fez-me enxergar que esta associação era equivocada, portanto, editei e a retirei.

A GRANDE MÍDIA, A INFLAÇÃO E O CÍRCULO FECHADO DE DEBATE

O ano de 2013 trouxe consigo a questão da inflação novamente a tona nos debates econômicos de nosso país. A Grande Mídia noticiou de forma barulhenta o retorno do fantasma, explorou mais a emoção do que a racionalidade da população ao tocar neste assunto, tanto o é que em nenhum mês o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) atingiu a casa dos 1%, a última acumulada divulgada em outubro deste ano auferiu 4,3%[1] de inflação em 2013.

O propósito deste artigo porém não é analisar a pressão da demanda sobre a oferta em nosso país. O que se pretende é questionar o quão aberto está o debate acerca da economia nacional na Grande Mídia. Se é possível que outras perspectivas que não a liberal clássica possuam voz na hora de propor soluções a problemática econômica brasileira.

Considerando que a expansão da renda do brasileiro médio e os programas assistencialistas governamentais deram força a demanda e que nosso país é carente de investimentos em ganhos de produtividade tanto do setor público quanto privado, é plausível que a pressão inflacionária seja real, e não somente fruto de especulações midiáticas.

Neste contexto, o COPOM (Conselho de Política Monetária) elevou continuamente a taxa básica de juros, a SELIC, desde abril e alcançamos os 10% de juros na última reunião, como pode ser observado no gráfico abaixo, esta é considerada alta.

Historico-Selic-meta-2013-111

E é neste ponto que a carência do debate é sentida.

Os economistas que analisam esta situação na Grande Mídia parecem desconhecer outras linhas de atuação que não a elevação da SELIC para combater a inflação. Desconsidera-se desta maneira outras questões concernentes a nossa economia que podem retroalimentar os juros. Quando aumentamos a taxa básica de juros, o Estado passa a destinar maior fatia do orçamento para cumprir os compromissos assumidos com os títulos da dívida pública.

Ano passado 43,98% do orçamento foi gasto em juros da dívida, cada aumento de 1% da SELIC aumenta[2] os gastos com juros em 20 bilhões de reais ao longo de um ano. O sequestro do orçamento por parte dos juros aumenta a relação dívida/PIB, o que irá requerer ainda mais aumento dos juros posteriormente. Não obstante, o comprometimento exorbitante com os juros sufoca o Estado, as possibilidades de investimentos em infraestrutura, saúde e educação os quais nosso país é tão carente tornam-se ainda mais difíceis. O gráfico abaixo é do orçamento de 2012 e evidencia o quão nossas contas estão envolvidas em pagamentos de juros.

Orcamento-2012

Neste ponto, entra a influência negativa da mídia corporativa, oligárquica que existe em nosso país. O debate, as opiniões são sempre restringidos ao espectro interessante a própria oligarquia detentora de poder político e econômico. Chomsky já havia diagnosticado esta medida como forma eficiente de manipulação da opinião pública.

A solução de combate a inflação que não é mencionada nestes meios é o aumento do compulsório que os bancos devem depositar no Banco Central do Brasil. Esta medida retira dinheiro do mercado, o que reduz a pressão sobre a oferta sem sacrificar as contas públicas, os investimentos sociais.

Esta solução porém, não aumenta a fatia de nosso dinheiro que volta aos credores, não engorda os bolsos dos rentistas, não é de admirar que não seja mencionada na Grande Mídia.

Este quadro demonstra o quanto a democratização da mídia, a Ley de Medios que a Argentina vem implementando é necessária também para nós. A necessidade de ampliação do espectro de visões que influem no debate midiático dará mais robustez a nossa democracia, a fará responder com maior eficiência aos anseios da população.

Referências:

[1] http://www.calculador.com.br/tabela/ipca
[2] http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Divida-publica-e-juros-coquetel-explosivo/29667

A RAIVA IDEOLÓGICA DE JABOR

Hoje, Arnaldo Jabor, colunista do Estadão e analista da Rede Globo, que nas manifestações de junho foi escrachado pela opinião pública pelo comentário elitista que emitiu sobre as manifestações do Movimento Passe Live, deu mais uma vez sérios sinais de que sua perspectiva ideológica o afeta profundamente no momento em que se propõe a analisar questões que condizem a nossa república. Em texto confuso publicado[1] em sua coluna do Estadão, Arnaldo não diferencia assuntos particulares de públicos e já não sabe mais diferir justiça de política. Comecemos, portanto, a destrinchar suas intenções por meio da publicação.

“Comecei a escrever este artigo e parei. Minhas mãos tremiam de medo diante da gravidade do assunto. Parei. Tomei um calmante e recomecei.”

Assim inicia seu texto, demonstrando claramente que seu emocional está influindo sobremaneira em sua análise, comprometendo a razoabilidade de seus comentários.

“o ministro Celso de Mello tem nas mãos o poder de decretar nosso futuro. Essa dependência do voto fatal de um homem só já é um despautério jurídico, um absurdo político.”

Esse trecho é bastante revelador se tivermos atenção, quando se refere ao acolhimento dos embargos infringentes, que somente preveem novo julgamento, com base jurídica para tanto desta maneira, tenta atribuir importância exagerada à decisão, com o objetivo de manipular opiniões e barganhar partidários. Não, um novo julgamento a alguns dos acusados não tem o poder de determinar nosso futuro, e a república não está ameaçada no caso do STF cumprir algo previsto pela jurisprudência de metade de nossos ministros. Quando avalia como absurdo político o voto de minerva do decano Celso de Mello, tenta jogar o poder de decisão para uma suposta opinião pública, esquecendo-se convenientemente do poder de manipulação dos meios de comunicação que assinam sua carteira.

“Tudo parecia um atemorizante sacrilégio, como se todos estivessem cometendo o pecado de ousar cumprir a lei julgando poderosos. Vi o “frisson” nervoso nos ministros juízes que, depois de sete anos de lentidão, tiveram de correr para cumprir os prazos impostos pelas chicanas e retardos…”

Seu comprometimento com o setor político adversário é gritante neste trecho. Em sua mente, o cumprimento da lei que visa um julgamento justo, trata-se de retardo, como se o nosso STF prestasse contas ao Partido dos Trabalhadores de suas decisões.

“Amanhã, Celso de Mello estará nos julgando a todos; julgará o País e o próprio Supremo.”

É de uma confusão mental, de uma raiva política tal comentário. Jabor tenta de todas as maneiras impor ao decano a sua opinião, ao ponto de dizer que um novo julgamento a alguns dos acusados é capaz de acabar com o Supremo, e de mudar o destino do povo. A pressão midiática é covarde.

“Nosso único foro seguro era (é?) o Supremo Tribunal.”

Enquanto o STF cumpria as vontades do setor político o qual ele integra, o foro era seguro, a partir do momento que não cumpre sua vontade deixa de ser. Esperneio infantil.

“Já imaginaram a euforia dos criminosos condenados e as portas todas abertas para os que roubam e roubarão em todos os tempos? Vai ser uma festa da uva. A democracia e a República serão palavras risíveis.”

155 milhões do mensalão tornam a república e a democracia risíveis. Mas 615 milhões sonegados de um de seus contratantes contribuem para o povo. Um erro não justifica o outro, ambos devem ser investigados, julgados e punidos, mas na forma da lei, não na forma que seus patrões desejam.

“O novato Barroso, considerado um homem “de talento robusto e sério”, como tantas personagens de Eça de Queiroz, já lançou a ideia e falou de sua “consciência individual” com orgulho e delícia: “Faço o que acho certo. Independentemente da repercussão. Não sou um juiz pautado sobre o que vai dizer o jornal no dia seguinte”. Mas, quem o pauta? A coruja de Minerva, o corvo de Poe, ou os urubus que sobrevoam nossa carniça nacional? Ele não é pautado por nada? A população que o envolve, não o comove?”

Respondo quem pauta o ministro Barroso, a constituição federal, o autor o sabe, porém prefere não comentar, pois isso não serve seus interesses. Quando assume a voz da população na última frase não consigo deixar de lembrar do próprio alguns meses atrás julgando mesquinhas as manifestações que eram “somente por vinte centavos”. Será mesmo que o que ele diz serve aos interesses da população?

“A verdade é que, desde o início, o desejo de ministros como o Lewandowski e o Toffoli era retardar o julgamento.”

Esta acusação é séria, porque pressupõe envolvimento dos ministros com os acusados, interessante seria apresentar provas ao invés de difamar de forma tão leviana. Mas é certo que não o fará.

“Será a vitória para os bolcheviques e corruptos lobistas. Ok, Dirceu, você venceu.”

Nesta última frase o flerte com a esquizofrenia é manifesto. Dirceu usurpou o STF para conseguir vence-lo né? Em um país no qual metade do orçamento público é gasto em juros de títulos que vão diretamente ao bolso das elites, onde se encontra este bolchevismo?

Por último, é necessário analisar as questões de forma fria, pois a justiça não é a vingança, e estamos julgando crimes e não medidas políticas. O STF é instituído para servir a república por meio da constituição, e não atendendo as reivindicações das mídias dominantes de intenções duvidosas.
jabor

 

Referência:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,amanha-o-brasil-muda-,1075649,0.htm

O LIBERALISMO TORNOU-SE UMA RELIGIÃO, SEM HIPÉRBOLES

A História nos mostra uma série de propostas, teorias e sistemas que nos ajudaram a progredir e que se tornaram decadentes, contraproducentes e exploradores. O liberalismo econômico decai.  E decai porque se tornou imperativo, porque invadiu esferas que não econômicas, todas as relações passaram a ser vistas pelo prisma do mercado.
É possível caracteriza-lo como religião em muitos pontos. Seus sacerdotes são os economistas, seus templos são as corporações, e seu deus naturalmente é o mercado. Não se trata de exagero, pergunte, por exemplo, a um padre ou pastor sobre um problema, ele lhe dirá para entrega-lo nas mãos de Deus. Faça o mesmo com um neoliberal, este lhe dirá para entrega-lo nas mãos do mercado.
A analogia não para por aí. Comparemos com os expansionismos praticados pela Igreja Católica Apostólica Romana por exemplo. Esta possui programas de evangelização que duram até os dias de hoje, assistimos há pouco tempo a JMJ em nosso país, mas desde o descobrimento do novo mundo temos doutrinação dos povos nativos na América. O liberalismo que se propõe como diz a palavra, a “liberar”, na prática é imperialista. A América Latina, e a África e mais recentemente o Oriente Médio, sofreram e sofrem investidas do Ocidente, que por meio de bombas, metralhadoras e ditaduras, trazem a “democracia de mercado”, a “salvação dos pobres”.
Os princípios do mercado ultrapassaram a esfera econômica, exemplo disso é o fato do Brasil subsidiar seguradoras de saúde, em detrimento do SUS. Nossa constituição diz no artigo 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Realmente não é o que vemos na prática, a saúde passou de direito a mercadoria, o que também corrobora com isso é o fato dos políticos terem planos de saúde garantidos por dinheiro público.
E o mercado não pretende parar por aí, expoentes do anarco-capitalismo, como Rothbard no exterior, e Daniel Fraga no Brasil, defendem abertamente até a venda de órgãos no livre mercado. Baudelaire já observava no século XIX o seguinte: “… sobretudo para os homens de negócios, aos olhos de quem a natureza existe apenas em suas relações de utilidade com seus negócios, o fantástico real da vida acha-se singularmente embotado.”
Não é somente a saúde humana que cobra sua fatura nesta “transação”. A saúde ambiental também se encontra debilitada. As mudanças climáticas, a poluição ambiental também é inquestionável fruto desse impulso consumista.
As emissões de carbono modificam as concentrações de gases na atmosfera, que responde aumentando o efeito estufa. A nossa incompetência de lidar com os resíduos desta imensa produção acabam por poluir os mananciais, quando falamos dos resíduos orgânicos. No caso dos sólidos, criamos um gigantesco lixão no oceano Pacífico.
Podemos dar um exemplo de desrespeito à saúde humana e ambiental simultâneos, este é o caso do desastre de Bhopal, na Índia. Em 1984, na madrugada de 2 para 3 de dezembro, cerca de 40 toneladas de gases letais vazaram da fábrica da Union Carbide Corporation, em três dias mais de 8000 pessoas já haviam morrido pela exposição, a Union Carbide simplesmente abandonou o local, deixando-o totalmente contaminado. Atualmente mais de 150.000 pessoas sofrem de doenças crônicas por conta do acidente. O caso não pôde ser julgado na Índia por pressões dos EUA, que o assumiu e fixou indenizações que variaram entre 370 e 533 dólares, o que não cobriu nem metade das despesas médicas. Este caso não foi o único.
Ainda na questão da produção, o que mais chama atenção e contesta o dogma do livre mercado é a obsolescência programada. Teóricos desta corrente afirmam que a concorrência força os produtores a cada vez mais aumentarem a qualidade de seus produtos, e o que mais é observado são principalmente aparelhos com prazo de validade bem curto, e que depois de quebrado, não possuem concerto, o que nos leva novamente ao consumo.
A finalidade foi distorcida. Prova disso é que a máxima utilitarista pilar moral do liberalismo, já não é atendida. Bentham assim definiu: “Por princípio da utilidade, entendemos o princípio segundo o qual toda a ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função da sua tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela ação”. Considerando o quadro de integração global, e a situação de desigualdade persistente entre os povos, é claro que o bem-estar de grande parte dos envolvidos na ação não vem sendo considerado. Emblemático fato que corrobora com esta afirmação é o lucro do maior banco privado brasileiro, o Itaú, que foi de nada menos que 7,055 bilhões. Maior que o PIB de 33 países.
Precisamos redefinir as relações econômicas, políticas, ambientais e sociais. A independência produtiva, a descentralização do poder, o respeito aos princípios ambientais, e a relação social como um fim em si mesma parecem ser o norte que devemos definir para renovação de nossa sociedade, e consequente garantia do nosso bem-estar, e do das gerações futuras.
Bhopal disaster
Algumas das milhares vítimas da Union Carbide Corporation.

Referências: (Na sequência do artigo)
http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2011/11/ubsidio-publico-dos-planos-de-saude-e-uma-caixa-preta-diz-especialista-na-area (Matéria, subsídios à saúde privada)
http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf196a200.htm (Artigo 196 à 200 CF 1988)
http://www.youtube.com/watch?v=lU-Q3D3sv5E (Discurso pró venda de órgãos, de Daniel Fraga)
Baudelaire, Charles. Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. 70 páginas. (Coleção leitura). Capítulo IV, página 27.
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1003163-5602,00.html (Reportagem, lixão do Oceano Pacífico)
http://www.greenpeace.org.br/bhopal/docs/Bhopal_desastre_continua.pdf (Matéria, Desastre de Bhopal)
Bentham, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. 248 páginas.
Capítulo I, página 14. http://socserv.mcmaster.ca/econ/ugcm/3ll3/bentham/morals.pdf
http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/07/30/lucro-do-itau-no-1-semestre-e-maior-que-o-pib-de-32-paises.htm (Matéria, lucro do Itaú)

QUAL A SEMELHANÇA ENTRE AMARILDO (2013) E EDSON LUÍS (1968)?

Há 45 anos, no dia 28 de março de 1968, foi assassinado pela polícia militar o estudante Edson Luís, jovem secundarista de origem humilde que veio estudar no Rio de Janeiro. Sua morte gerou comoção nacional, desencadeou diversas manifestações, 50.000 pessoas acompanharam seu corpo até o cemitério São João Batista. Segundo Zuenir Ventura, foi a gota d’água, o evento que abriu caminho a revolta popular que desencadeou o famigerado Ato Institucional 5, o golpe dentro do golpe, a linha dura da ditadura militar.
Há 18 dias queremos saber onde está Amarildo, que no dia 14 de julho foi prestar esclarecimentos aos policiais da UPP da Rocinha, e nunca mais voltou. Sua morte também parece ser o estopim da revolta, manifestações nas ruas e nas redes sociais querem saber onde se encontra o também humilde senhor pai de seis filhos que, assim como Edson Luís, foi vítima do Estado policialesco implantado pelas UPPs nas favelas.
As semelhanças não param por aí, o PLS 278/2011, redigido pelos senadores Marcelo Crivella (PRB-RJ), Ana Amélia (PP-RS) e Valter Pinheiro (PT-BA) é prioridade na pauta do Congresso Nacional na volta do recesso. O projeto de lei visa conceituar a prática de terrorismo, ainda não definida na Constituição brasileira. Em seu artigo 2º é assim definido o terrorismo: “provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoa, por motivo ideológico, religioso, político ou de preconceito racial ou étnico”. Este projeto de lei atenta claramente contra a liberdade de manifestação dos movimentos sociais, da população de maneira geral. Alguma semelhança com o AI-5?
É impressionante como a história se repete, só mudando os atores. O golpe de 1964 visava atender interesses americanos, o PLS 278/2011 objetiva os interesses da FIFA na Copa do Mundo do próximo ano. Estabilidade social e política são fundamentais quando se quer explorar um evento, ou uma nação economicamente.
Mais uma vez a Exceção quer ser imposta por interesses estrangeiros, em detrimento do povo.
Os resultados da repressão, da força bruta daquela época nós conhecemos. Depois do AI-5 ainda vivemos 17 anos de ditadura militar, inúmeros desaparecimentos, torturas, exílios.
O Brasil possui dois caminhos neste momento, repetir a história servindo a interesses econômicos escusos. Ou fazer a diferença, fazer democracia verdadeira, com participação popular das ruas, atendendo os interesses do povo brasileiro.

“Um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la.”Amarildo-Edson

Referências:
1968 – O ano que não terminou. Ventura, Zuenir
http://www.andes.org.br/andes/print-ultimas-noticias.andes?id=6190
http://www.apublica.org/2013/07/amarildo-presente/
http://www.torturanuncamais-rj.org.br/MDDetalhes.asp?CodMortosDesaparecidos=20
http://legis.senado.leg.br/mateweb/arquivos/mate-pdf/100792.pdf (Íntegra PLS 278/2011)
http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaNormas.action?numero=5&tipo_norma=AIT&data=19681213&link=s (Íntegra AI-5)