O termômetro dos nossos dias

A desintegração da persistência da memória. Salvador Dali, 1954

Por Rennan Martins

Se engana aquele que julga ser preciso livros pra conhecer o mundo. Ele acontece e se mostra, a todo instante, diante dos nossos olhos

Impressiona aqueles que não notam a história, este espetáculo que ultrapassa todos os limites da ficção, acontecer incessantemente. As diversas interações sociais a pleno vapor, em todos os âmbitos, encantam e são dignos de nota.

Começo pelo fato que moveu minha escrita. Estou em Brasília, já passam das 2:30 da manhã de um 25 de maio, e chove.

A capital brasileira é conhecida por duas estações bem definidas de seca e chuva e se o clima não estivesse mudando tanto, a secura reinaria nesta época, sangrando o nariz dos forasteiros.

Que será que as mudanças climáticas, que só começaram, nos trarão com o presumível ganho de vigor? As previsões são pessimistas.

Continuando no clima. Se por aqui a água desequilibra a dinâmica do Cerrado, em São Paulo assistimos o Cantareira esvair-se, com o volume morto já em uso. Não foi somente a chuva que não veio, o grau de impermeabilização da localidade é tão alto que o ciclo hidrológico tem um deficit considerável de infiltração, que se transforma em enchentes e inundações.

Provavelmente encontraremos uma saída para esta questão crucial, mas temos o dever de procurar soluções de menor custo humano possível.

No campo político internacional, o cenário é o de um império, a saber, o norte-americano, se debatendo diante da perda de poder.

No ano em que nasci os ianques venciam a dura guerra contra os soviéticos, alcançando o auge. O intelectual de prateleira, Fukuyama, chegou a anunciar o fim da história, pra regozijo de seu amo.

Pouco mais de 22 anos depois de Gorbachev assinar a dissolução da URSS, seu arqui-inimigo à época vigia todo o planeta no objetivo de auferir ganhos e manter posição. Emblemático neste ponto é a última revelação do Wikileaks desta semana, que nos mostrou que todas as ligações do México, Bahamas, Filipinas, Quênia e Afeganistão são monitoradas.

Só que com essa prática estão a cruzar a linha do temor, alcançando a do ódio, o que os sentencia a queda, como ensinou Maquiavel.

A ascensão de uma ordem multipolar reflete a demanda dos desafios que temos a frente.

Com o capitalismo liberal conseguimos a fartura, que colateralmente trouxe a crise ambiental e um abismo social crescente.

Esta problemática só será superada por princípios coletivistas e colaborativos.

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Chicão no Circo

Por Rennan Martins

Seis e meia da manhã, o odor fétido do córrego invade as narinas de Chicão, que mesmo acostumado ao cheiro acaba por acordar, pois a água já estava molhando seu surrado colchão e todo o chão do barraco. Indiferente, caminha em seu domicílio e abre o armário da cozinha, um pouco de pó de café e alguns biscoitos de água e sal, sente uma ponta de rancor, fecha.
Vou ver se arrumo uma larica na padoca do seu Dito, dizem seus botões. Veste a bermuda, joga a camiseta por cima do ombro e toma os becos de seu bairro. O cheiro mais forte do esgoto quase lhe dá náuseas, à esquerda alguns cachorros disputam a alimentação no lixo, à direita algumas crianças brincam, sujando-se. Tudo nos conformes. Cruza com Leandro, amigo de infância, mas não o cumprimenta. Tá na nóia, vai pedir dinheiro… Imagina.
Chega à padaria do seu Benedito, dois homens de ar militar que estavam conversando com ele disfarçam e saem.
– E aí moleque, tem nada sobrando não, se adianta.
– Qual é, seu Dito, tô no aperto, só mais essa vez.
– Sou teu pai não.
– Tem nenhum serviço pra eu te adiantar não?
O ar de seu Dito se torna mais pesado com essa pergunta.
– Olha, tu tem ideia do que tá querendo, né?
– Tô ligado Ditão, cansei dessa vida, quero adiantar meu lado.
*
Seis e vinte e sete da manhã, Benedito, dono da padaria e empreendedor em ramos escusos, ouve fortes batidas no portão de seu estabelecimento e residência. Esses vermes de novo, advinha. Acende o cigarro e caminha lentamente, levanta o portão, os senhores entram sem nada dizer. A tensão denuncia a urgência do “pedido”.
– E aí ladrão, tem um serviço novo pra tu…
Dito traga profundamente o cigarro, quase se ouve o silêncio e apreensão.
– Han…
– Tu vai meter uma vagabunda no cativeiro…
– Já disse que só trafico, Morais.
– Quero saber não, se eu levar essa mijada tu vai junto.
– Porra Morais! Quer me foder?
– Segura tua onda aí, quer adiantar teu tranco?
Raiva e remorso invadem seu Benedito, que não as deixa transparecer aos homens da lei presentes.
– É quem?
– Isabela Oliveira.
Dito solta uma risada nervosa, traga.
– Dá nome aos bois Morais, filha de quem?
– Do coronel…
– Tá achando que sou teu faxineiro, caralho?!
– Vai fazer e ponto.
Os passos de Chicão são ouvidos na padaria.
*
Coronel Oliveira, linha dura da polícia militar. Conhecido pela honestidade, só tão grande quanto sua intolerância.
Na noite anterior chamou alguns de seus homens ao gabinete e os informou que estava ciente dos desvios de armamento do quartel, e que daria o devido procedimento aos fatos apurados.
Veremos, balbuciou Morais ao sair do gabinete.
*
Seu Dito desdobra a folha deixada em seu balcão, lê. Dirige um olhar sério a Chicão.
– Quer se adiantar? É desse jeito não.
– Caguei, bora que eu tô na função.
Benedito expõe o pedido dos senhores que acabaram de sair. Francisco ouve atentamente, medo e expectativa pulsam.
– Ganho o quê com isso?
– Vai ganhar, precisa saber mais que isso não…
*
Meio dia e quarenta e cinco. Da esquina ouve-se o sinal, movimentação na porta do colégio, agitação na mente do meliante. Três jovens caminham despreocupadas em direção à esquina. “Porra, o que eu faço com essas piranha?”
Como se já conhecesse o procedimento, sai do carro, revólver em punho, uma coronhada, um empurrão. Isabela no carona. Acelera ansiosamente pelas ruas, tentando algo difícil. Não parecer suspeito.
– Dá um pio que eu te passo!
Lágrimas involuntárias correm o rosto da moça.
Quatro e dezesseis. Senhora Oliveira liga para o coronel.
– Otávio, a Isabela avisou onde ia?
– Não, preciso desligar. Trabalho sério.
Nessa hora Otávio, o pai, liga para sua filha. Fora de área ou desligado. Tenta se acalmar, mas a vontade é sair à procura. O coronel não sabe com quem contar. Desconfiança, arrependimento. Entra em seu gabinete. Torce pra que este fato não tenha nenhuma ligação com sua denúncia.
“Se nada tiver sumido, Isabela também não vai”
Diz uma folha impressa.
*
Francisco, mais novo sequestrador de sua comunidade, não vê outra opção que não seja trancar a jovem em seu domicílio, descarta a possibilidade de sua mãe aparecer e escandalizar, sabe que os sumiços dela costumam demorar não menos de três dias. Estaciona o veículo cedido pelo contratante Dito em local discreto e segue com ela pelas vielas, sob constantes ameaças. Impossível julgar em qual dos dois há mais nervosismo.
-Só quero o dinheiro, tá me entendendo?
-Sim…
Isabela pensa em pedir pra não ser machucada, mas rapidamente chega à conclusão que não lembrá-lo da possibilidade é mais interessante.
*
Vinte e quarenta e um. Depois de muito rodar pela cidade na esperança de encontrar sua filha, imagina quem é o mais indicado a ajudar sem oferecer perigo à sua família, descobre que nenhum de seus colegas é confiável. Entra em casa.
-Cadê a Bela? O que tá acontecendo?
Tenho tudo sob controle, Elisa, afirma o coronel, tentando esquecer que é também o pai. É tamanho o esforço de parecer forte que nem repara em sua mulher tomando o papel de sua mão.
-Vou ligar agora pra polícia, Otávio!
-Eu sou a polícia, os outros são vermes.
-Como assim?
-Não posso contar com nenhum deles…
-Conta pra mim ao menos, é nossa filha… Isso não é uma operação.
Neste momento, o coronel sai de cena, quem fica é somente Otávio, abalado em suas convicções, inseguro perante o que fazer. Expõe toda a sequência de fatos que culminaram neste pesadelo, se tocar da pessoalidade do problema o tornou incapaz de assumir sua patente.
No primeiro momento que se põe a pensar na condição de pai lhe ocorre uma lembrança. O balbuciado de Morais invade sua mente, sente um impulso violento ordenando sua morte. As conjecturas que, a esta altura já não possuem controle, o advertem que antes da vingança é necessário salvar sua filha. Sai de casa outra vez.
*
Mais ou menos no mesmo horário, em um ponto qualquer da cidade, Morais toma cerveja atento ao noticiário, a entrevista que prestou após a polêmica prisão de um ladrão de galinha o perturba, pois, ao ser indagado do motivo da surra que aplicou ao detido desarmado, afirmou com veemência:
-Porque eu quis!
Pensava nas repercussões, pensava principalmente que não podia ser exonerado. Assiste a si próprio na tela da TV do bar, ouvindo sem discernir as palavras de apoio vindas de seu colega. Até que inicia, em seguida à sua aparição, a sessão de opinião da âncora do programa.
“Diante de um judiciário que protege os marginais e agride o cidadão de bem e seus protetores, diante de uma sociedade tomada pela violência à qual o Estado se omite, diante de uma indignação generalizada que clama pela justiça ainda que errônea, a atitude do cabo Morais é no mínimo compreensível. Não podemos confundir a ação de alguém que desesperadamente quer justiça com a de alguém que pratica a violência pura e gratuita. Este exagero da força, se assim pode ser considerado, deve ser creditado não a quem o praticou, mas sim a quem o provocou!”
Soa como música a seus ouvidos, alguns frequentadores o parabenizam, rapidamente muda de humor, sente-se um herói. Após ter certa segurança de que ainda tem emprego e que sua privilegiada posição em relação à lei continuará, se lembra da filha do coronel. Decide então se inteirar do andamento do serviço que contratou, liga para seu Dito que informa, por meio de códigos, que o rapto já ocorreu, desliga dizendo a ele que espere segunda ordem.
De uma mesa de canto, coronel Otávio, que ali chegou há poucos minutos, bebe água aparentando paciência, lançando seu olhar sobre o cabo Morais que, mesmo sob o efeito do álcool, consegue sentir a forte energia emitida. Se vira procurando de onde ela vem, avista seu superior. Tomado pela confiança transmitida pela relevante opinião proferida pela mídia, se senta ao lado de Otávio.
-Fala coronel, posso dispensar a formalidade militar nesta situação, né?
-Filho da puta, você vai me falar e vai ser agora cadê minha filha.
-Do que você tá falando? Por acaso isso é uma acusação?
-Quem está falando de lei aqui? Nós dois resolveremos isso é aqui mesmo.
-Tava vendo o jornal? Fiquei influente, melhor segurar sua onda…
-É o seguinte, Morais, já tenho cópias das auditorias distribuídas a alguns sob ordem de entregar à imprensa diante de qualquer fato estranho.
-Hum… Será?
-Nosso herói vai pagar pra ver?
A sensação do poder, da imunidade já o tinham apaixonado. Só de imaginar ser caguetado, sua postura já se afeta. -Que garantia eu tenho, coronel? Você vai me foder com ou sem família… Minha mãe vai chorar antes da sua.
-Olha só, Morais, estou pouco me fodendo pra tuas merda, só me leva até ela que eu calo a boca, e outra, a única certeza que você tem é que tá fodido se algo acontecer. Sabe que não terei nenhum motivo pra não fazer da sua vida um inferno ou pior.
Morais se cala, medita na óbvia constatação que sua pretensão não permitiu enxergar. Neste instante, um turbilhão de pensamentos o invade, repara em volta, seu colega sumiu, esperando assim não se comprometer. Imagina sua morte, imagina sua exoneração, sua prisão, e segura o impulso de acabar com Otávio ali mesmo.
-Vamo no teu carro buscar ela.
Otávio levanta sem reflexão, sob a força da paternidade. Tomam o caminho. Morais decide que é melhor descobrir o local do cativeiro pessoalmente. Somente avisa a Benedito que se encontra no portão pelo celular. Dito sai de sua casa, cambaleante de sono e cachaça.
-To te vendo muito esses tempos, Morais, gosto disso não.
-Vai perder tempo algum, só me diz onde o encarregado guardou o malote.
Benedito indica a eles como chegar no local, sente uma pontada de remorso em envolver Chicão neste lamaçal, o sono porém o vence e então volta a dormir.
Morais e Otávio, em alta tensão e dispostos às últimas consequências em nome de seus interesses conflitantes, seguem quase como parceiros pelos escuros caminhos da favela. Chegam onde parece ser o local indicado.
É aí então que Otávio é tomado pela sede de vingança, com uma voz dissimuladamente tranquila chama por Isabela, que solta um grito abafado em resposta, numa questão de segundos, ouve-se um disparo. Morais cai sem vida.
Adentra o cativeiro de sua unigênita, enxerga um rapaz tomado pelo medo, de pistola colada no ouvido da sequestrada. Cálculos então são feitos por todos os participantes. Chicão só pensa em não acabar como muitos que conheceu. Isabela só pensa em se desvencilhar de quem a usa como escudo.
Otávio então tem certeza, em um instante impossível de ser medido, que isolou Chicão em sua mira. Disparo.
Morre Chicão. Morre Isabela.
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Observações: Este conto teve seu esboço publicado anteriormente aqui mesmo neste blog em post intitulado “Mais um dia na vida de Chicão (Parte 1)“. Após finalizado, o enviei ao Passa Palavra que o publicou em primeira mão. A Revista Práxis, iniciativa do camarada George dos Santos também o replicou. Quanto à música de Gabriel o Pensador, só fiz este link posteriormente, mas é muito apropriada à proposta.

2014, retificando Orwell

Visão além do tempo
profecia fria e certa
Orwell nos deixou
é somente incorreta
a descrição, o que o nomeou

o Grande Irmão tomou forma
diferente da de um homem
e seu olho pouco importa
pois tem Mão poderosa

Mão esta invisível
porém onipresente
as costas do trabalhador
são as que mais a sentem

fardo este pesado
que nos leva a servir
o todo poderoso Mercado
que ordena consumir.

Obama-Big-Brother

A GRANDE MÍDIA, A INFLAÇÃO E O CÍRCULO FECHADO DE DEBATE

O ano de 2013 trouxe consigo a questão da inflação novamente a tona nos debates econômicos de nosso país. A Grande Mídia noticiou de forma barulhenta o retorno do fantasma, explorou mais a emoção do que a racionalidade da população ao tocar neste assunto, tanto o é que em nenhum mês o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) atingiu a casa dos 1%, a última acumulada divulgada em outubro deste ano auferiu 4,3%[1] de inflação em 2013.

O propósito deste artigo porém não é analisar a pressão da demanda sobre a oferta em nosso país. O que se pretende é questionar o quão aberto está o debate acerca da economia nacional na Grande Mídia. Se é possível que outras perspectivas que não a liberal clássica possuam voz na hora de propor soluções a problemática econômica brasileira.

Considerando que a expansão da renda do brasileiro médio e os programas assistencialistas governamentais deram força a demanda e que nosso país é carente de investimentos em ganhos de produtividade tanto do setor público quanto privado, é plausível que a pressão inflacionária seja real, e não somente fruto de especulações midiáticas.

Neste contexto, o COPOM (Conselho de Política Monetária) elevou continuamente a taxa básica de juros, a SELIC, desde abril e alcançamos os 10% de juros na última reunião, como pode ser observado no gráfico abaixo, esta é considerada alta.

Historico-Selic-meta-2013-111

E é neste ponto que a carência do debate é sentida.

Os economistas que analisam esta situação na Grande Mídia parecem desconhecer outras linhas de atuação que não a elevação da SELIC para combater a inflação. Desconsidera-se desta maneira outras questões concernentes a nossa economia que podem retroalimentar os juros. Quando aumentamos a taxa básica de juros, o Estado passa a destinar maior fatia do orçamento para cumprir os compromissos assumidos com os títulos da dívida pública.

Ano passado 43,98% do orçamento foi gasto em juros da dívida, cada aumento de 1% da SELIC aumenta[2] os gastos com juros em 20 bilhões de reais ao longo de um ano. O sequestro do orçamento por parte dos juros aumenta a relação dívida/PIB, o que irá requerer ainda mais aumento dos juros posteriormente. Não obstante, o comprometimento exorbitante com os juros sufoca o Estado, as possibilidades de investimentos em infraestrutura, saúde e educação os quais nosso país é tão carente tornam-se ainda mais difíceis. O gráfico abaixo é do orçamento de 2012 e evidencia o quão nossas contas estão envolvidas em pagamentos de juros.

Orcamento-2012

Neste ponto, entra a influência negativa da mídia corporativa, oligárquica que existe em nosso país. O debate, as opiniões são sempre restringidos ao espectro interessante a própria oligarquia detentora de poder político e econômico. Chomsky já havia diagnosticado esta medida como forma eficiente de manipulação da opinião pública.

A solução de combate a inflação que não é mencionada nestes meios é o aumento do compulsório que os bancos devem depositar no Banco Central do Brasil. Esta medida retira dinheiro do mercado, o que reduz a pressão sobre a oferta sem sacrificar as contas públicas, os investimentos sociais.

Esta solução porém, não aumenta a fatia de nosso dinheiro que volta aos credores, não engorda os bolsos dos rentistas, não é de admirar que não seja mencionada na Grande Mídia.

Este quadro demonstra o quanto a democratização da mídia, a Ley de Medios que a Argentina vem implementando é necessária também para nós. A necessidade de ampliação do espectro de visões que influem no debate midiático dará mais robustez a nossa democracia, a fará responder com maior eficiência aos anseios da população.

Referências:

[1] http://www.calculador.com.br/tabela/ipca
[2] http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Divida-publica-e-juros-coquetel-explosivo/29667

9 SINAIS DE QUE A ELITE ESTÁ PERDENDO O CONTROLE

O karma está vindo a passos largos em direção a elite. Enquanto os planos de intervenção na Síria são derrubados, vários sinais demonstram que a elite política e econômica está perdendo seu poder diante da humanidade.

A última década foi marcada por uma tentativa insana de consolidação do poder pela elite global frente ao povo. Estes planos sempre soaram como os de um vilão terrível de revista em quadrinhos, porém após o 11 de setembro estes aceleraram e a velocidade foi dobrada após a crise financeira de 2008.

Sim, estes planos estão condenados a falhar pois nós humanos somos concebidos para nos guiar por nossas próprias vontades e não controlados como um rebanho. Quanto mais a elite tenta controlar a população, maior se torna a entropia. Entropia, para aqueles que não sabem é a falta de ordem e previsibilidade, um decline gradual para a desordem.

Enquanto a elite desfruta de uma riqueza estrondosa comparada ao povo, se encontra cada vez mais forçada a exercer a tirania em nome da ordem. O que por sua vez expõe o lado escuro de seus interesses escondidos há muito. Não mais.

O povo está acordando massivamente, ao menos tão rápido quanto a elite constrói suas prisões em estilo Matrix. Parafraseando Victor Hugo, “Nenhum exército pode parar uma ideia quando o tempo dela é chegado.”

Abaixo seguem 9 sinais de que a elite está perdendo controle sobre a população:

  1. A versão oficial não mais convence: As mentiras contadas por eles simplesmente não mais funcionam. Houve um tempo em que a versão oficial, principalmente nos casos de guerra e paz tinha crédito. O quão mal é mentir a população principalmente nestes casos? O povo tendia a acreditar que a verdade era dita quando a vida estava envolvida na questão. Fomos enganados durante muito tempo, ainda que resolvam nos contar a verdade a partir de agora, poucos acreditariam.
  2. Não se confia mais na política: Os políticos possuem níveis de aprovação cada dia mais baixos. A confiança no poder público declina a cada instante em todos os lugares do mundo. Nos Estados Unidos por exemplo, 90% da população não crê na competência dos políticos. Em nosso país o Congresso Nacional possui[1] o penúltimo lugar no índice de confiança social do IBOPE com 29 pontos, numa escala de 0 a 100.
  3. Não se confia mais na grande mídia: No Brasil 87%[2] da população não acredita nos grandes meios de comunicação como defensores dos interesses populares, nos EUA este numero é de 77%. Exemplo marcante da perda de credibilidade da mídia corporativa foi o caso dos ataques químicos ocorridos na Síria, mesmo com o monopólio da informação ainda forte, o povo não deu crédito a versão oficial e desaprovou a intervenção.
  4. Os banqueiros são hostilizados: A Hungria tornou-se o primeiro país a seguir o exemplo da Islândia que rejeitou o Fundo Monetário Internacional e esta em vias de processar o antigo primeiro ministro o qual escravizou a população com a dívida.
  5. O Vaticano está mudando sua atuação radicalmente: Durante o papado de Bento XVI o Vaticano sofreu exposição negativa por conta de inúmeros escândalos de pedofilia, lavagem de dinheiro e fraudes. Bento então renunciou de forma inesperada, o que abriu caminho para o Papa Francisco, muito mais carismático. O novo papa tem tomado medidas enérgicas no sentido de recuperar a reputação da Igreja. Mesmo levando em conta a possibilidade destas mudanças serem retóricas, estes fatos demonstram que a Igreja se vê forçada a mudanças drásticas para não perder toda a credibilidade.
  6. Até mesmo os militares se rebelam: A possibilidade de mais uma intervenção americana na Síria foi acompanhada de inúmeros manifestos por parte de militares americanos avessos a mais uma guerra sem sentido. No Brasil, podemos observar casos de policiais que se negaram a agredir o povo, como o do policial que trocou o gás pimenta por água[3], outro foi do agente que atirou sua arma ao fogo[4] como forma de apoiar a população. E ainda mais um que se negou[5] a cumprir ordens arbitrárias e foi retirado de seu posto.
  7. Tropas policiais especializadas em repressão a manifestos: Um dos sinais mais claros de que as coisas saem dos trilhos é a intensa especialização da polícia em torno da repressão as manifestações em todo mundo. No Brasil a polícia se demonstra brutal[6] na maioria dos atos, o que escancara o despreparo e o desgaste das instituições em atender as demandas públicas.
  8. Os movimentos de cidadãos indignados atingiram escala mundial: Os últimos anos são testemunha de como os levantes populares estão cada dia mais fortes e generalizados. O caráter internacionalista dos atos é observado principalmente em fotos divulgadas nas redes sociais nas quais os manifestantes carregam bandeiras de outros países em apoio as suas respectivas causas.
  9. As plantas geneticamente modificadas são rejeitadas em todo lugar: Controla os alimentos e controlarás o povo. Verdade em teoria, porém muito mais complexo na prática. Companhias como a Monsanto estão cada dia mais expostas. Todo o seu poder político e econômico não consegue mais parar o consenso dos perigos em torno desses tipos de alimentos.
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Este artigo foi traduzido e adaptado a realidade brasileira. O original se encontra neste link: http://www.trueactivist.com/10-signs-the-global-elite-are-losing-control/

Referências:

[1] http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,ibope-protestos-derrubam-credibilidade-das-instituicoes,1059657,0.htm
[
2] http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-08-16/so-78-acham-que-meios-de-comunicacao-defendem-interesses-da-populacao.html?fb_action_ids=410349745742776&fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline&action_object_map=%7B%22410349745742776%22%3A700712846609904%7D&action_type_map=%7B%22410349745742776%22%3A%22og.recommends%22%7D&action_ref_map=%5B%5D
[
3] http://tabloidebr.terra.com.br/pm-que-utilizou-spray-de-agua-ao-inves-de-pimenta-e-afastado/
[4] http://www.youtube.com/watch?v=kX-a3Vx5yLg
[5] http://www.youtube.com/watch?v=AtLFhhMW5k4
[6] http://www.youtube.com/watch?v=5cLkPoLaCMM

A RAIVA IDEOLÓGICA DE JABOR

Hoje, Arnaldo Jabor, colunista do Estadão e analista da Rede Globo, que nas manifestações de junho foi escrachado pela opinião pública pelo comentário elitista que emitiu sobre as manifestações do Movimento Passe Live, deu mais uma vez sérios sinais de que sua perspectiva ideológica o afeta profundamente no momento em que se propõe a analisar questões que condizem a nossa república. Em texto confuso publicado[1] em sua coluna do Estadão, Arnaldo não diferencia assuntos particulares de públicos e já não sabe mais diferir justiça de política. Comecemos, portanto, a destrinchar suas intenções por meio da publicação.

“Comecei a escrever este artigo e parei. Minhas mãos tremiam de medo diante da gravidade do assunto. Parei. Tomei um calmante e recomecei.”

Assim inicia seu texto, demonstrando claramente que seu emocional está influindo sobremaneira em sua análise, comprometendo a razoabilidade de seus comentários.

“o ministro Celso de Mello tem nas mãos o poder de decretar nosso futuro. Essa dependência do voto fatal de um homem só já é um despautério jurídico, um absurdo político.”

Esse trecho é bastante revelador se tivermos atenção, quando se refere ao acolhimento dos embargos infringentes, que somente preveem novo julgamento, com base jurídica para tanto desta maneira, tenta atribuir importância exagerada à decisão, com o objetivo de manipular opiniões e barganhar partidários. Não, um novo julgamento a alguns dos acusados não tem o poder de determinar nosso futuro, e a república não está ameaçada no caso do STF cumprir algo previsto pela jurisprudência de metade de nossos ministros. Quando avalia como absurdo político o voto de minerva do decano Celso de Mello, tenta jogar o poder de decisão para uma suposta opinião pública, esquecendo-se convenientemente do poder de manipulação dos meios de comunicação que assinam sua carteira.

“Tudo parecia um atemorizante sacrilégio, como se todos estivessem cometendo o pecado de ousar cumprir a lei julgando poderosos. Vi o “frisson” nervoso nos ministros juízes que, depois de sete anos de lentidão, tiveram de correr para cumprir os prazos impostos pelas chicanas e retardos…”

Seu comprometimento com o setor político adversário é gritante neste trecho. Em sua mente, o cumprimento da lei que visa um julgamento justo, trata-se de retardo, como se o nosso STF prestasse contas ao Partido dos Trabalhadores de suas decisões.

“Amanhã, Celso de Mello estará nos julgando a todos; julgará o País e o próprio Supremo.”

É de uma confusão mental, de uma raiva política tal comentário. Jabor tenta de todas as maneiras impor ao decano a sua opinião, ao ponto de dizer que um novo julgamento a alguns dos acusados é capaz de acabar com o Supremo, e de mudar o destino do povo. A pressão midiática é covarde.

“Nosso único foro seguro era (é?) o Supremo Tribunal.”

Enquanto o STF cumpria as vontades do setor político o qual ele integra, o foro era seguro, a partir do momento que não cumpre sua vontade deixa de ser. Esperneio infantil.

“Já imaginaram a euforia dos criminosos condenados e as portas todas abertas para os que roubam e roubarão em todos os tempos? Vai ser uma festa da uva. A democracia e a República serão palavras risíveis.”

155 milhões do mensalão tornam a república e a democracia risíveis. Mas 615 milhões sonegados de um de seus contratantes contribuem para o povo. Um erro não justifica o outro, ambos devem ser investigados, julgados e punidos, mas na forma da lei, não na forma que seus patrões desejam.

“O novato Barroso, considerado um homem “de talento robusto e sério”, como tantas personagens de Eça de Queiroz, já lançou a ideia e falou de sua “consciência individual” com orgulho e delícia: “Faço o que acho certo. Independentemente da repercussão. Não sou um juiz pautado sobre o que vai dizer o jornal no dia seguinte”. Mas, quem o pauta? A coruja de Minerva, o corvo de Poe, ou os urubus que sobrevoam nossa carniça nacional? Ele não é pautado por nada? A população que o envolve, não o comove?”

Respondo quem pauta o ministro Barroso, a constituição federal, o autor o sabe, porém prefere não comentar, pois isso não serve seus interesses. Quando assume a voz da população na última frase não consigo deixar de lembrar do próprio alguns meses atrás julgando mesquinhas as manifestações que eram “somente por vinte centavos”. Será mesmo que o que ele diz serve aos interesses da população?

“A verdade é que, desde o início, o desejo de ministros como o Lewandowski e o Toffoli era retardar o julgamento.”

Esta acusação é séria, porque pressupõe envolvimento dos ministros com os acusados, interessante seria apresentar provas ao invés de difamar de forma tão leviana. Mas é certo que não o fará.

“Será a vitória para os bolcheviques e corruptos lobistas. Ok, Dirceu, você venceu.”

Nesta última frase o flerte com a esquizofrenia é manifesto. Dirceu usurpou o STF para conseguir vence-lo né? Em um país no qual metade do orçamento público é gasto em juros de títulos que vão diretamente ao bolso das elites, onde se encontra este bolchevismo?

Por último, é necessário analisar as questões de forma fria, pois a justiça não é a vingança, e estamos julgando crimes e não medidas políticas. O STF é instituído para servir a república por meio da constituição, e não atendendo as reivindicações das mídias dominantes de intenções duvidosas.
jabor

 

Referência:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,amanha-o-brasil-muda-,1075649,0.htm

MAIS UM DIA NA VIDA DE CHICÃO (PARTE 1)

Seis e meia da manhã, o odor fétido do córrego poluído invade as narinas de Chicão, que mesmo acostumado ao cheiro acaba por acordar, pois a água já estava molhando seu surrado colchão e todo o chão do barraco. Indiferente às condições insalubres, caminha em seu domicílio e abre o armário da cozinha, um pouco de pó de café e alguns biscoitos de água e sal, sente uma ponta de rancor, fecha.
Vou ver se arrumo um pão na padoca do seu Dito, seus botões declaram. Veste a bermuda, joga a camiseta por cima do ombro e toma os becos de seu bairro. O cheiro mais forte do esgoto quase lhe dá náuseas, a esquerda alguns cachorros disputam a alimentação no lixo exposto, a direita algumas crianças brincam, sujando-se com a água contaminada. Tudo nos conformes cruza com Leandro, amigo de infância, mas não o cumprimenta. Tá na nóia vai pedir dinheiro… Imagina.
Chega à padaria do seu Benedito, dois homens de ar militar que estavam a conversar com ele disfarçam e saem discretamente.
– E aí malandro, tem pão não, se adianta.
– Qual é seu Dito, tô no aperto, só mais essa vez.
– Sou teu pai não moleque, chega de mordomia.
– Tem nenhum serviço pra eu te adiantar não?
O ar de seu Dito se torna mais pesado com essa pergunta.
– Olha rapá, tu tem ideia do que tá querendo né?
– To ciente Ditão, cansei dessa vida, quero virar cidadão tá ligado?
Seis e vinte e sete da manhã, Benedito, dono da padaria e empreendedor em ramos escusos ouve fortes batidas no portão de seu estabelecimento e residência. Esses verme de novo, advinha. Acende o cigarro e caminha lentamente, levanta o portão, os senhores adentram sem nada dizer. A tensão denuncia a urgência do “pedido”.
– E aí ladrão, tem um serviço novo pra tu…
Dito traga profundamente o cigarro, quase se ouve o silêncio e apreensão.
– Desembucha.
– Tu vai meter uma vagabunda no cativeiro…
– Já disse que só trafico Morais.
– Quero saber não, se eu levar essa mijada tu vai junto.
– Porra Morais! Quer me foder?
– Segura a onda ladrão, quer adiantar teu tranco é?
Raiva e remorso invadem seu Benedito. Nada disso é exposto aos homens da lei presentes.
– É quem?
– Isabela Oliveira.
Dito solta uma risada nervosa, traga.
– Abre o bico Morais, filha de quem?
– Do coronel…
– Tá achando que sou teu faxineiro caralho?
– Cala a boca, vai fazer e ponto.
Os passos de Chicão são ouvidos na padaria.
Coronel Oliveira, linha dura da polícia militar. Sua honestidade só é tão grande quanto sua intolerância. Na noite anterior chamou alguns de seus homens ao gabinete e os informou que estava ciente dos desvios de armamento do quartel, e que daria o devido procedimento aos fatos apurados.
Veremos, balbuciou Morais ao sair do gabinete.
Seu Dito desdobra o papel deixado em cima de seu balcão, lê. Dirige um olhar sério a Chicão.
– Quer virar cidadão moleque? É desse jeito não.
– Caguei, bora que eu to na função.
Benedito expõe o pedido dos senhores que acabaram de sair. Francisco ouve atentamente, medo e expectativa lhe invadem.
– Ganho o que com isso?
– Vai ganhar, precisa saber mais que isso não…
Meio dia e quarenta e cinco. Da esquina ouve-se o sinal, movimentação na porta do colégio, agitação na mente do meliante. Três jovens caminham despreocupadas em direção à esquina. Porra, o que eu faço com essas piranha? Como que programado, sai do carro, revólver em punho, uma coronhada, um empurrão. Isabela no carona. Acelera ansiosamente pelas ruas, atormentado ao mesmo, para não dar bandeira.
– Dá um pio que eu te passo vagabunda!
Lágrimas reprimidas correm o rosto da moça.
Quatro e dezesseis. Senhora Oliveira liga para o coronel.
– Otávio, a Isabela avisou onde ia?
– Não, preciso desligar. Trabalho sério.
Nessa hora Otávio, o pai, tremulamente liga para sua filha. Fora de área ou desligado. O pai deseja sair à procura. O coronel não sabe com quem contar. Desconfiança, desilusão, arrependimento. Entra em seu gabinete.
“Se nada tiver sumido Isabela também não vai”
Diz um bilhete de letras recortadas de revistas.
barracoenchente

Essa é a minha primeira tentativa de escrever um conto, por isso postei parte dele a fim de pedir a aqueles que se disporem sugestões, críticas e opiniões para que eu melhore meu estilo. Agradeço desde já.

O QUE A POLÍCIA DE SÃO PAULO ESTÁ NOS ESCONDENDO?

O Brasil iniciou essa semana com uma tragédia, a da família de policiais militares mortos em São Paulo. Foram encontrados mortos em casa, o sargento da ROTA Luís Marcelo Pesseghini, sua mulher Andréia Regina Bovo Pesseghini, cabo da PM. A mãe de Andréia, Benedita de Oliveira Bovo, sua irmã Bernadete Oliveira da Silva e o filho do casal Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini . Todos com tiros na cabeça, de uma pistola .40[1]
Segundo a versão oficial, as evidências indicam que Marcelo, o filho do casal, de 13 anos, assassinou toda a família com um único tiro em suas cabeças. Em seguida dirigiu o carro da família até a porta de sua escola, a cerca de cinco quilômetros de casa, chegando lá às 01h25min da manhã, esperou até às 06h30min quando saiu do carro e assistiu normalmente à aula de segunda feira. Terminada a aula Marcelo voltou para casa de carona com o pai de um amigo, e tendo chegado suicidou.  A perícia encontrou ainda a chave do carro no casaco do adolescente, uma faca, um revólver calibre 32 sem munição, rolos de papel higiênico e mudas de roupa em sua mochila. Não foram encontrados resíduos de pólvora nas mãos do rapaz, mas isto pode acontecer quando se trata da pistola .40. Ainda ontem o delegado da polícia civil responsável pelo caso Itagiba Franco declarou a imprensa que o melhor amigo de Marcelo afirmou que o jovem tinha planos de matar os pais, fugir para um local abandonado e viver como matador de aluguel.
Esta versão gerou uma grande polêmica, muitos duvidaram das informações cedidas pela polícia, uma vizinha da família declarou que Marcelo nunca atiraria em ninguém, até mesmo a página do facebook “Faca na Caveira” admiradora confessa da polícia, divulgou nota[2] questionando os fatos apresentados. Por fim hoje surgiu mais uma notícia que definitivamente põe o cheiro de farsa no ar, o comandante do 18º Batalhão da PM, coronel Wagner Dias, declarou[3] hoje em entrevista a rádio bandeirantes que a cabo da PM Andréia havia denunciado colegas de farda por envolvimento em roubos a caixas eletrônicos.
Muitas perguntas podem ser feitas em relação ao que a polícia tem afirmado. Se o rapaz pretendia fugir porque foi à escola normalmente? Como nenhum dos vizinhos ouviu os disparos na madrugada? Como um adolescente de 13 anos teria habilidade e principalmente força para aplicar cinco tiros com tanta precisão? Como a pistola de reconhecido recuo forte[4] foi parar embaixo do corpo do Marcelo após o suicídio?
Analisando num contexto mais amplo, é realmente possível a polícia estar tentando encobrir ações arbitrárias de seus homens. Os protestos desencadeados no mês de junho, a brutal repressão policial assistida, o caso Amarildo[5], e a chacina na comunidade da Maré[6], desencadearam um amplo debate sobre desmilitarização da Polícia Militar, medida recomendada ao Brasil até mesmo pela ONU[7].
Ainda neste contexto, a Human Rights Watch divulgou em carta aberta[8] a população diversos dados que questionam e põem em evidência o despreparo, as arbitrariedades, e até mesmo dão fortes indícios de que alguns agentes da Polícia Militar de São Paulo promovem execuções extrajudiciais, alteram cenas de crimes e forjam tiroteios na finalidade de incriminar suas vítimas.
A Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), da qual o pai de Marcelo fazia parte, matou 247 pessoas entre 2010, 2011 e 2012. O número de mortes pela polícia em São Paulo neste primeiro semestre de 2013 está na média de seis por semana. A carta ainda descreve muitos outros fatos que demonstram a ilegalidade e o desrespeito ao Estado de Direito por parte da corporação.
Feitas essas observações, realmente parece que faltam sim partes deste quebra-cabeça, que os policiais estão protegendo a si próprios da lei. Os indícios devem ser apurados com minúcia pelas autoridades. Não é aceitável termos de conviver também com a violência por parte da polícia, que supostamente está instituída para proteger o cidadão. A desmilitarização da polícia se torna imperativa a cada dia.
PM-bate
Referências:
[1] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/08/pai-e-mae-foram-os-primeiros-serem-mortos-por-garoto-mostra-pericia.html
[2] https://www.facebook.com/FACANACAVEIRAPORRAA
[3] http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/08/1322947-comandante-de-batalhao-diz-que-pm-morta-com-a-familia-denunciou-colegas.shtml
[4] http://www.youtube.com/watch?v=7KG7SGYY5pI
[5] http://www.apublica.org/2013/07/amarildo-presente/
[6] http://www.apublica.org/2013/07/mare-de-terror-rio-de-janeiro-favela-da-mar/
[7] http://www.sinsep-go.com.br/noticias/04/06/2012/3576.shtml
[8] http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questao-racial/violencia-racial/20197-human-rights-watch-carta-aberta-ao-governador-alckmin-e-procurador-geral-de-justica-marcio-rosa-sobre-violencia-policial#axzz2bJGpPggT

O LIBERALISMO TORNOU-SE UMA RELIGIÃO, SEM HIPÉRBOLES

A História nos mostra uma série de propostas, teorias e sistemas que nos ajudaram a progredir e que se tornaram decadentes, contraproducentes e exploradores. O liberalismo econômico decai.  E decai porque se tornou imperativo, porque invadiu esferas que não econômicas, todas as relações passaram a ser vistas pelo prisma do mercado.
É possível caracteriza-lo como religião em muitos pontos. Seus sacerdotes são os economistas, seus templos são as corporações, e seu deus naturalmente é o mercado. Não se trata de exagero, pergunte, por exemplo, a um padre ou pastor sobre um problema, ele lhe dirá para entrega-lo nas mãos de Deus. Faça o mesmo com um neoliberal, este lhe dirá para entrega-lo nas mãos do mercado.
A analogia não para por aí. Comparemos com os expansionismos praticados pela Igreja Católica Apostólica Romana por exemplo. Esta possui programas de evangelização que duram até os dias de hoje, assistimos há pouco tempo a JMJ em nosso país, mas desde o descobrimento do novo mundo temos doutrinação dos povos nativos na América. O liberalismo que se propõe como diz a palavra, a “liberar”, na prática é imperialista. A América Latina, e a África e mais recentemente o Oriente Médio, sofreram e sofrem investidas do Ocidente, que por meio de bombas, metralhadoras e ditaduras, trazem a “democracia de mercado”, a “salvação dos pobres”.
Os princípios do mercado ultrapassaram a esfera econômica, exemplo disso é o fato do Brasil subsidiar seguradoras de saúde, em detrimento do SUS. Nossa constituição diz no artigo 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Realmente não é o que vemos na prática, a saúde passou de direito a mercadoria, o que também corrobora com isso é o fato dos políticos terem planos de saúde garantidos por dinheiro público.
E o mercado não pretende parar por aí, expoentes do anarco-capitalismo, como Rothbard no exterior, e Daniel Fraga no Brasil, defendem abertamente até a venda de órgãos no livre mercado. Baudelaire já observava no século XIX o seguinte: “… sobretudo para os homens de negócios, aos olhos de quem a natureza existe apenas em suas relações de utilidade com seus negócios, o fantástico real da vida acha-se singularmente embotado.”
Não é somente a saúde humana que cobra sua fatura nesta “transação”. A saúde ambiental também se encontra debilitada. As mudanças climáticas, a poluição ambiental também é inquestionável fruto desse impulso consumista.
As emissões de carbono modificam as concentrações de gases na atmosfera, que responde aumentando o efeito estufa. A nossa incompetência de lidar com os resíduos desta imensa produção acabam por poluir os mananciais, quando falamos dos resíduos orgânicos. No caso dos sólidos, criamos um gigantesco lixão no oceano Pacífico.
Podemos dar um exemplo de desrespeito à saúde humana e ambiental simultâneos, este é o caso do desastre de Bhopal, na Índia. Em 1984, na madrugada de 2 para 3 de dezembro, cerca de 40 toneladas de gases letais vazaram da fábrica da Union Carbide Corporation, em três dias mais de 8000 pessoas já haviam morrido pela exposição, a Union Carbide simplesmente abandonou o local, deixando-o totalmente contaminado. Atualmente mais de 150.000 pessoas sofrem de doenças crônicas por conta do acidente. O caso não pôde ser julgado na Índia por pressões dos EUA, que o assumiu e fixou indenizações que variaram entre 370 e 533 dólares, o que não cobriu nem metade das despesas médicas. Este caso não foi o único.
Ainda na questão da produção, o que mais chama atenção e contesta o dogma do livre mercado é a obsolescência programada. Teóricos desta corrente afirmam que a concorrência força os produtores a cada vez mais aumentarem a qualidade de seus produtos, e o que mais é observado são principalmente aparelhos com prazo de validade bem curto, e que depois de quebrado, não possuem concerto, o que nos leva novamente ao consumo.
A finalidade foi distorcida. Prova disso é que a máxima utilitarista pilar moral do liberalismo, já não é atendida. Bentham assim definiu: “Por princípio da utilidade, entendemos o princípio segundo o qual toda a ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função da sua tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela ação”. Considerando o quadro de integração global, e a situação de desigualdade persistente entre os povos, é claro que o bem-estar de grande parte dos envolvidos na ação não vem sendo considerado. Emblemático fato que corrobora com esta afirmação é o lucro do maior banco privado brasileiro, o Itaú, que foi de nada menos que 7,055 bilhões. Maior que o PIB de 33 países.
Precisamos redefinir as relações econômicas, políticas, ambientais e sociais. A independência produtiva, a descentralização do poder, o respeito aos princípios ambientais, e a relação social como um fim em si mesma parecem ser o norte que devemos definir para renovação de nossa sociedade, e consequente garantia do nosso bem-estar, e do das gerações futuras.
Bhopal disaster
Algumas das milhares vítimas da Union Carbide Corporation.

Referências: (Na sequência do artigo)
http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2011/11/ubsidio-publico-dos-planos-de-saude-e-uma-caixa-preta-diz-especialista-na-area (Matéria, subsídios à saúde privada)
http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf196a200.htm (Artigo 196 à 200 CF 1988)
http://www.youtube.com/watch?v=lU-Q3D3sv5E (Discurso pró venda de órgãos, de Daniel Fraga)
Baudelaire, Charles. Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. 70 páginas. (Coleção leitura). Capítulo IV, página 27.
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1003163-5602,00.html (Reportagem, lixão do Oceano Pacífico)
http://www.greenpeace.org.br/bhopal/docs/Bhopal_desastre_continua.pdf (Matéria, Desastre de Bhopal)
Bentham, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. 248 páginas.
Capítulo I, página 14. http://socserv.mcmaster.ca/econ/ugcm/3ll3/bentham/morals.pdf
http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/07/30/lucro-do-itau-no-1-semestre-e-maior-que-o-pib-de-32-paises.htm (Matéria, lucro do Itaú)